Arqueólogos confirmam uso de cannabis em rituais do Reino de Judá no século VIII antes de Cristo

Estudo da Universidade de Tel Aviv publicado em 2020 comprova uso ritual de cannabis no Reino de Judá há 2.700 anos, com THC identificado em altares de Tel Arad

Publicada em 13/02/2026

Altares de calcário encontrados no santuário da fortaleza de Tel Arad, onde pesquisadores identificaram resíduos de cannabis datados de 2.700 anos. | Crédito: Canva Pro

Altares do santuário de Tel Arad continham resíduos de THC, CBD e CBN, evidenciando o uso ritual da cannabis no Reino de Judá há cerca de 2.700 anos. Crédito: Instituto de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv. | Crédito: Canva Pro

A história da cannabis ganhou um novo capítulo quando a ciência moderna revisitou as escavações da fortaleza de Tel Arad, no deserto de Negev. Um estudo publicado, em 2020, no periódico do Instituto de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv trouxe evidências físicas de que a planta não era apenas conhecida, mas utilizada de forma sofisticada no Reino de Judá, há cerca de 2.700 anos.

O sítio arqueológico, que servia como uma fortificação militar na fronteira sul do reino, abrigava um santuário em excelente estado de conservação. Foi ali, na entrada do local considerado o "Santo dos Santos", que dois altares de calcário guardavam, por séculos, os segredos de antigas práticas cerimoniais.

 

 

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A química revelada

 

Durante décadas, acreditava-se que os incensos queimados nesses rituais eram compostos apenas por resinas aromáticas e gordura animal. No entanto, análises laboratoriais conduzidas pelos pesquisadores Eran Arie, Baruch Rosen e Dvory Namdar mudaram essa perspectiva.

Utilizando técnicas modernas de cromatografia, o estudo identificou que, enquanto o altar maior continha resíduos de olíbano (incenso), o altar menor apresentava traços preservados de canabinoides, incluindo THC (tetrahidrocanabinol), CBD (canabidiol) e CBN (canabinol). Essa foi a primeira confirmação arqueológica do uso de psicotrópicos em um contexto de culto judaíta oficial.

 

Conhecimento técnico ancestral

 

O aspecto mais revelador da descoberta não é apenas a presença da planta, mas a técnica de queima utilizada. Os pesquisadores notaram uma distinção fundamental no preparo das substâncias:

No altar de incenso: O olíbano foi misturado com gordura animal, propiciando uma queima em altas temperaturas (necessárias para liberar a fragrância).

No altar de cannabis: A planta foi misturada com esterco animal.

Essa diferença sugere uma intencionalidade farmacológica. A queima do esterco ocorre de forma lenta e em temperaturas mais baixas (inferiores a 150°C). Esse controle térmico era essencial para descarboxilar a cannabis e ativar seus compostos psicoativos sem destruí-los pelo calor excessivo. O objetivo, portanto, era garantir que a fumaça inalada no ambiente confinado do santuário produzisse um efeito psicoativo potente nos participantes.

 

Uma rota comercial de luxo

 

Além da técnica, o estudo lançou luz sobre a geopolítica da época. Como não há registros de cultivo de cannabis na região árida de Judá no século VIII a.C., a hipótese mais aceita é a de que a substância (provavelmente na forma de resina, ou haxixe) tenha sido importada de longas distâncias, possivelmente da Ásia Central ou do sudeste da Rússia.

Isso indica que a cannabis era um item de alto valor comercial e logístico, adquirido com recursos do Estado para abastecer uma fortaleza militar. Longe de ser um uso marginal, a presença da planta em Tel Arad demonstra que ela estava integrada às práticas oficiais da época.

 

Reescrevendo a História

 

O achado de Tel Arad é uma peça fundamental para compreender a relação milenar da humanidade com a cannabis. Ele comprova que, muito antes das discussões modernas, a planta já ocupava um lugar de destaque na farmacopeia e nos rituais da antiguidade, utilizada com precisão técnica e propósito definido.