Potência do THC dispara e expõe lacuna no sistema endocanabinoide
Estudo internacional aponta aumento histórico da potência do THC e reacende debate sobre tolerância, regulação do receptor CB1 e a necessidade de biomarcadores para medir o sistema endocanabinoide
Publicada em 03/03/2026

Potência do THC e medição do sistema endocanabinoide. Foto - Canva Pro
O aumento exponencial da potência do THC nos mercados globais pode estar revelando uma fragilidade estrutural na medicina canabinoide: a incapacidade de medir o funcionamento do sistema endocanabinoide (SEC).
Dados do Programa de Monitoramento de Potência de 2024 da Universidade do Mississippi indicam que a concentração média de THC saltou de aproximadamente 1% em 1977 para 16% em 2022. No mercado adulto, a potência média das flores subiu de 12% para mais de 21% entre 2014 e 2024. Já no mercado medicinal do Reino Unido, levantamento publicado pelo portal Business of Cannabis aponta que, em 2022, apenas 11% das flores prescritas tinham mais de 22% de THC. Em 2024, esse grupo passou a representar cerca de um terço das prescrições e, nos dois primeiros meses de 2025, quase metade.
Segundo a reportagem de Ben Stevens do Business of Cannabis, o fenômeno é frequentemente atribuído ao desenvolvimento de tolerância. Pacientes que percebem redução na eficácia tendem a aumentar a dose. No entanto, o farmacologista molecular Stefan Broselid argumenta que essa prática ocorre sem base objetiva de medição.
Em entrevista ao portal, ele declarou:
"No momento, pesquisadores e clínicos podem ignorar o SEC porque não o medem"
E acrescentou:
“Quando você consegue atribuir um valor numérico ao tônus CB1 ao lado de valores como PCR, citocinas, HbA1c ou perfil lipídico, fica muito mais difícil fingir que o sistema endocanabinoide é opcional.”
O descompasso entre teoria e prática
De acordo com um estudo de 2025 citado na matéria, que acompanhou mais de 16 mil pacientes de cannabis medicinal, manter a paridade terapêutica conforme a tolerância se desenvolve exigiria um aumento médio de 4,4 pontos percentuais na potência do THC por sessão. Na prática, os pacientes aumentam cerca de 0,6% — menos de um décimo do necessário para compensar a adaptação neurobiológica.
A base dessa adaptação está na regulação negativa do receptor CB1. Estudos de neuroimagem por PET mostram que usuários crônicos diários apresentam cerca de 20% menos disponibilidade de receptores CB1 em comparação a não usuários. A recuperação segue uma curva previsível: reversão inicial em até 48 horas após interrupção, melhora perceptível entre 7 e 10 dias e retorno substancial ao nível basal em aproximadamente 28 dias.
Pesquisas conduzidas na University of California San Diego também indicaram que indivíduos com uso crônico apresentaram desempenho equivalente ao grupo controle em testes de direção após 48 horas de abstinência, enquanto usuários ocasionais demonstraram déficits mensuráveis após exposição aguda ao THC. O achado sugere que a regulação negativa pode conferir uma espécie de “proteção neurobiológica” contra certos efeitos cognitivos — uma variável relevante para pacientes medicinais.
A proposta: medir para tratar
Sem ferramentas acessíveis para monitorar a dinâmica do CB1, pacientes ajustam doses “no escuro”. Para enfrentar esse problema, Broselid trabalha no desenvolvimento de um biomarcador não invasivo capaz de mensurar a disponibilidade do receptor CB1.
Ao Business of Cannabis, ele afirmou:
“O que estou construindo é, na verdade, um protótipo de medicamento ECS”
E explicou:
“Um biomarcador não invasivo de disponibilidade de CB1 e uma terapia não canabinóide destinada a corrigir a disfunção do SEC em sua origem. Minha especialidade é a ciência translacional, pegar a complexa biologia do SEC e transformá-la em algo que você possa realmente medir e sobre o qual possa intervir.”
Segundo o pesquisador, embora a cannabis medicinal seja o campo mais evidente de aplicação inicial, a mensuração objetiva do sistema endocanabinoide pode ter impacto muito além da terapêutica canabinoide, ampliando a integração do SEC à medicina de precisão.
Leia a reportagem original no portal Business of Cannabis

