DEA mantém reclassificação da cannabis pendente apesar de ordem executiva de Trump

Agência apresenta novo relatório sem cronograma definido, enquanto especialistas alertam que mudança para Lista III traria impactos profundos na pesquisa e tributação, mas não legalização federal

Publicada em 07/01/2026

DEA mantém reclassificação da cannabis pendente apesar de ordem executiva de Trump

Embora a diretriz presidencial instruísse a conclusão da revisão "da maneira mais rápida possível", a agência ainda não estabeleceu um cronograma. Imagem: Canva Pro

A Administração de Combate às Drogas (DEA) informou nesta segunda-feira que o processo de apelação sobre a reclassificação da cannabis "permanece pendente". O comunicado contraria a expectativa de celeridade gerada pela recente ordem executiva do presidente Donald Trump. 

Embora a diretriz presidencial instruísse a conclusão da revisão "da maneira mais rápida possível", a agência ainda não estabeleceu um cronograma, indica o Marijuana Moment.

Em relatório conjunto com defensores da reforma, a DEA reiterou que o recurso interlocutório segue sem definição. O documento cita alegações de parcialidade e comunicações impróprias durante o processo de revisão. 

"Até o momento, o recurso interlocutório dos requerentes ao Administrador referente à sua Moção de Reconsideração permanece pendente", afirmou a agência.

O texto oficial acrescenta ainda que "nenhum cronograma para apresentação de memoriais foi definido". Este é o quarto relatório de situação com linguagem praticamente idêntica apresentado pelas partes envolvidas. 

A estagnação na reclassificação da cannabis ocorre quase um ano após o recurso ter sido aceito por um ex-juiz de direito administrativo.

Essa postura sinaliza um novo adiamento e contrasta com declarações anteriores da liderança da agência. O administrador da DEA, Terrance Cole, havia afirmado em audiência no Senado que examinar a proposta seria "uma das minhas primeiras prioridades".

 

A reclassificação da cannabis e a pressão política


A demora da DEA surge semanas após Trump assinar a ordem executiva instando a Procuradora-Geral Pam Bondi a finalizar a transferência da planta para a Lista III da Lei de Substâncias Controladas (CSA). Enquanto a administração busca acelerar a reclassificação da cannabis, a oposição política se mobiliza.

Um dos principais grupos proibicionistas contratou Bill Barr, ex-procurador-geral, para liderar uma ação judicial visando reverter a medida. Além disso, o Serviço de Pesquisa do Congresso (CRS) observou recentemente que o Departamento de Justiça poderia, em teoria, recusar a implementação. 

O órgão também alertou para a possibilidade de reinício de todo o processo de revisão.

 

Análise de especialistas sobre a mudança


A possível mudança para a Lista III não significaria a legalização federal, mas alteraria drasticamente o cenário regulatório. Segundo artigo dos professores Dra. Priscila Gava Mazzola e Dr. Marcelo Polacow Bisson, da UNICAMP, a medida "representa a mais significativa mudança na política de drogas dos EUA em mais de cinquenta anos".

No entanto, os acadêmicos ressaltam a necessidade de cautela quanto às expectativas do público sobre a reclassificação da cannabis. "É crucial entender que a reclassificação não legaliza a cannabis em nível federal. A cannabis permanecerá uma substância controlada", explicam os professores.

Eles detalham que a distinção fundamental reside no reconhecimento da planta como produto farmacêutico. Nesse cenário, ela poderia ser aprovada pela FDA e prescrita, diferindo dos atuais modelos estaduais baseados apenas em recomendações médicas.

 

Impactos econômicos da reclassificação da cannabis


Do ponto de vista econômico, a mudança traria alívio fiscal imediato para o setor nos Estados Unidos. Mazzola e Bisson apontam que a eliminação da restrição do Código da Receita Federal (Section 280E) "poderia aumentar drasticamente a lucratividade" das empresas ao permitir a dedução de despesas.

Contudo, os especialistas alertam para o risco de concentração de mercado após a reclassificação da cannabis. Grandes indústrias farmacêuticas poderiam marginalizar pequenos produtores devido aos altos custos de aprovação exigidos pela FDA.

"A reclassificação da cannabis de Schedule I para Schedule III é um passo monumental que reconhece formalmente o potencial medicinal da planta e abre caminhos para a pesquisa científica", concluem os especialistas. Eles ponderam, entretanto, que a mudança "não é uma panaceia" e exige regulamentação robusta para mitigar desafios de saúde pública.

 

Com informações de Marijuana Moment