Universidade de Santa Catarina prepara ensaios clínicos com cannabis para TDAH, depressão e cicatrização
Novas pesquisas apostam em metodologias rigorosas, como o duplo-cego, e investigam o potencial de canabinoides menos conhecidos, como o CBG e o THCV
Publicada em 26/01/2026

O Laboratório de Neurociência Comportamental (LabNeC) da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) está expandindo suas linhas de investigação sobre o uso medicinal da planta, com ma série de novos ensaios clínicos com cannabis randomizados e duplo-c
O Laboratório de Neurociência Comportamental (LabNeC) da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) está expandindo suas linhas de investigação sobre o uso medicinal da planta. Sob a coordenação do Prof. Dr. Rafael Mariano de Bitencourt, a instituição prepara uma série de novos ensaios clínicos com cannabis randomizados e duplo-cegos.

As pesquisas buscam avaliar a eficácia de fitocanabinoides em condições como Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), depressão e feridas neuropáticas. Previstos para iniciar entre março e abril deste ano, os estudos contam com parcerias de associações de pacientes e outras instituições acadêmicas.
Diferente de pesquisas observacionais anteriores, as novas iniciativas buscam isolar variáveis para garantir dados mais robustos. Um destaque é o estudo voltado para adolescentes com TDAH, pioneiro no uso controlado de Canabigerol (CBG), que será conduzido na região de Florianópolis.
"Não há praticamente nada de ensaio clínico duplo-cego com CBG e TDAH. Será um estudo interessante, pois não é um tiro no escuro. Unimos o conhecimento teórico à prática clínica off-label", explica Bitencourt.
Metodologia dos ensaios clínicos com cannabis
Outra frente de investigação abordará o tratamento da depressão utilizando óleo rico em canabidiol (CBD). Previsto para abril, este braço dos ensaios clínicos com cannabis seguirá a metodologia randomizada, acompanhando pacientes por três meses. Segundo o pesquisador, o objetivo é validar cientificamente relatos que já sugerem benefícios no controle dos sintomas.
A universidade também expandirá sua atuação geográfica com um estudo no interior da Paraíba. O foco será a aplicação tópica de creme à base da planta para cicatrização de feridas em diabéticos. A iniciativa parte de resultados promissores obtidos em um estudo piloto realizado em Tubarão (SC).
"Temos bons indícios teóricos e vamos testar na prática. A questão é verificar o que acontece em feridas mais complexas, como as do diabetes, que possuem dificuldade de cicatrização", questiona o coordenador sobre a hipótese do teste.
Além dos estudos com humanos, o laboratório mantém pesquisas pré-clínicas com modelos animais. Entre as novidades está a investigação do tetrahidrocannabivarin (THCV) para obesidade, avaliando parâmetros como ganho de peso e marcadores neuroinflamatórios.
O cenário dos ensaios clínicos com cannabis no Brasil
Para viabilizar projetos de alto custo sem financiamento robusto, o laboratório recorre a parcerias estratégicas para manter os ensaios clínicos com cannabis. Associações como a Santa Cannabis e a Cannabis Sem Fronteiras fornecem os insumos e garantem o tratamento, enquanto pesquisadores dedicam horas de trabalho voluntário.
"O ideal seria ter financiamento e bolsas. Como não temos essa verba disponível, aprendemos a trabalhar com o que temos. Existe toda uma mobilização de pessoas doando seu tempo para viabilizar o estudo", conclui o professor.
Regulação e o futuro dos ensaios clínicos com cannabis
Com mais de duas décadas dedicadas ao estudo dos canabinoides, Bitencourt avalia o atual cenário nacional com otimismo cauteloso. Para ele, embora a evolução científica e regulatória seja visível, o processo ainda ocorre de forma lenta.
"É inegável que estamos andando. Mas é a passos de formiga, sem vontade e, às vezes, de forma muito morosa", analisa o pesquisador sobre o ritmo dos avanços que impactam os ensaios clínicos com cannabis.
Um ponto crítico levantado é a exclusão das associações de pacientes nas discussões formais com agências sanitárias. Segundo ele, essas entidades realizam um trabalho de assistência que já se consolidou como fundamental no país e não podem ser ignoradas.
Apesar das críticas, o professor reconhece que o ambiente de pesquisa melhorou em comparação ao início dos anos 2000. "Há 20 anos, importávamos CBD de forma ilegal e ninguém conhecia a substância. Agora o processo facilitou e a pesquisa avança. Vejo tudo isso com otimismo", finaliza.


