
Cannabis medicinal: decisões da ANVISA colocam regulação novamente em debate
O que esperar da agência de regulação em relação à Cannabis Medicinal neste momento?
Publicado em 18/01/2026A ANVISA está novamente perdida em relação à Cannabis Medicinal no Brasil? A pergunta que abro este artigo não é retórica, mas um grito de angústia que ecoa nos lares de milhares de famílias brasileiras. A cada nova "deliberação" da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), a sensação é de um déjà vu doloroso: a saúde e a dignidade dos pacientes continuam reféns de uma burocracia que parece mais perdida do que cautelosa.
O histórico da luta pela Cannabis Medicinal no Brasil é marcado pela coragem das famílias, que tiveram que ir à Justiça para garantir o direito básico à vida. A cada passo que a ciência avança, a regulamentação no Brasil patina, ignorando a urgência de quem não pode esperar. A ANVISA, que deveria ser a guardiã da saúde pública, transforma-se, ironicamente, no maior obstáculo para o acesso.
A mais recente notícia, a prorrogação do prazo dado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) para a regulamentação do plantio até Março de 2026, é mais um capítulo dessa novela de adiamentos. Para quem vive a dor diária de um ente querido, a promessa de "mais tempo" soa como escárnio. É a oficialização de que a saúde de nossos filhos e familiares não é uma prioridade.
A cereja do bolo da inércia é o Edital de Chamamento Nº 23/2025, publicado pela Agência para "reunir evidências científicas" sobre o cultivo. Com quase uma década de uso medicinal no país, e com a ciência global já consolidada, questionamos: que evidências a ANVISA ainda precisa? Essa atitude soa como uma tática protelatória, um atestado de que a Agência se recusa a encarar a realidade.
O impacto dessa inação é sentido diretamente no bolso e na alma das famílias. Ao barrar o plantio nacional, a ANVISA nos condena à importação cara e burocrática, transformando o tratamento em um privilégio para poucos. A vida não pode ser um luxo, e a saúde não deveria depender da capacidade financeira de uma família.
Por trás da lentidão regulatória, reside um preconceito velado que se esconde sob a capa da "cautela sanitária". É o medo irracional da planta que ainda domina o debate, em detrimento da compaixão e da evidência científica. A politicagem, mais uma vez, fala mais alto do que o direito à vida, como já criticamos em outras ocasiões.
A questão da Cannabis Medicinal é, acima de tudo, humana. É sobre a mãe que vê o sorriso do filho retornar, sobre o pai que recupera a esperança, sobre a dignidade de um paciente que encontra alívio. É a história da minha Anny, e de tantas outras, que provam que a planta é remédio, e não um tabu a ser mantido.
Para aqueles que ainda carregam o preconceito, é preciso um olhar de empatia. Não estamos falando de "drogas", mas de um tratamento validado que devolve qualidade de vida. A luta não é ideológica, mas existencial. É um apelo à razão e ao coração, para que separem o mito da medicina.
A solução para o acesso justo e soberano sempre esteve na mesa da ANVISA: o plantio. A liberação do cultivo para fins medicinais e de pesquisa é o caminho mais rápido para baratear o custo, garantir a qualidade e a autossuficiência do Brasil. A insistência em ignorar essa via é o que nos faz questionar a real intenção da Agência.
Chega de esperar por Março de 2026, ou por qualquer outra data imposta pela inércia. A ANVISA precisa de coragem para assumir seu papel de liderança, colocando a vida acima da ideologia e do medo. A saúde não espera, e a luta das famílias por um acesso pleno e justo à Cannabis Medicinal continuará, com a certeza de que a verdade e a humanidade estão do nosso lado.
*A opinião dos nossos colunistas não reflete necessariamente o posicionamento da Sechat.

Norberto Fischer é pai de Anny Fischer, primeira brasileira autorizada legalmente a importar o extrato da maconha para uso medicinal. Tornou-se articulador político no Brasil, com repercussão internacional, destacando-se no ativismo pelo direito ao acesso, distribuição pelo SUS, custeio dos tratamentos pelos planos de saúde, plantio e produção nacional por empresas, ONGs e autocultivo.
