Adultos de 30 anos apresentam padrões de menor risco no uso de cannabis, mostra estudo

Pesquisa com 731 adultos mostra que frequência de uso, tabagismo e ansiedade são determinantes para o risco de dependência, enquanto mulheres e usuários que combinam cannabis com álcool apresentam menor risco

Publicada em 02/03/2026

“Adultos na faixa dos 30 anos estudando padrões de uso de cannabis, destacando fatores de menor risco, saúde mental e hábitos de consumo”

Adultos de 30 anos participam de estudo sobre padrões de menor risco no uso de cannabis medicinal. Crédito: Canva Pro

 

Um estudo recente com 731 adultos canadenses na faixa dos 30 anos analisou os fatores associados ao uso de cannabis de menor risco, em contraste com o risco de Transtorno por Uso de Cannabis (CUD). Os dados fazem parte da 25ª fase do estudo Nicotine Dependence in Teens (NDIT), coletados entre 2022 e 2023, e o risco de dependência foi avaliado pelo Cannabis Abuse Screening Test (CAST).

 

Perfil dos usuários

 

Dos participantes, 44% relataram uso de cannabis no último ano. Entre eles, 63% foram classificados como menor risco e 37% como maior risco de CUD. Usuários de maior risco eram predominantemente homens, com nível educacional mais baixo, maior prevalência de tabagismo e indicadores de saúde mental menos favoráveis.

Em contraste, os usuários de menor risco apresentaram perfis mais próximos dos não usuários, incluindo padrões de bem-estar psicológico e social.

 

Motivos e padrões de uso

 

Os participantes relataram três categorias principais de uso: recreativo, para melhorar a saúde mental ou ambos simultaneamente. Não houve relatos de uso exclusivamente para fins médicos, alívio de dor ou sono como principal motivação.

O estudo também avaliou uso concomitante com álcool e tabaco. O uso simultâneo de cannabis e álcool esteve associado a menor risco de CUD, enquanto o uso simultâneo com tabaco e o tabagismo diário aumentaram a probabilidade de maior risco.

 

Saúde mental e bem-estar

 

Usuários de maior risco apresentaram maior ansiedade (GAD-7 >10) e mais sintomas depressivos (MDI). Indicadores de regulação emocional, estratégias de enfrentamento (CISS-21) e bem-estar psicológico, social e emocional (MHC-SF) mostraram que usuários de menor risco tinham perfis mais próximos dos não usuários.

Aspectos como qualidade do sono (PSQI) e atividade física foram medidos, mas não se mostraram determinantes para o risco de CUD.

 

Fatores estatísticos associados

 

Após ajuste por idade, sexo e educação, os pesquisadores identificaram:

  • Ser mulher – associado a maior prevalência de uso de menor risco.
  • Uso simultâneo de cannabis e álcool – ligado a padrões de menor risco.

Por outro lado, fatores que reduziram a probabilidade de uso de menor risco incluíram:

  • Maior frequência de consumo de cannabis
  • Uso simultâneo com tabaco
  • Tabagismo ativo
  • Ansiedade elevada (GAD-7 >10)

Uso de cannabis de menor risco

 

O estudo reforça que o uso de cannabis de menor risco é caracterizado por padrões moderados, sem prejuízos significativos à saúde física, mental ou social. Frequência de uso, tabagismo e sintomas de ansiedade surgem como principais indicadores de maior risco, enquanto mulheres e usuários que combinam cannabis com álcool apresentam menor risco.

Os dados reforçam a importância de estratégias de redução de danos e educação baseada em evidências em políticas de cannabis medicinal, especialmente em cenários pós-legalização.

 

Avaliação clínica vai além da frequência de uso

 

Dr. Guilherme Menery comenta os critérios adotados pela EFSA na avaliação do CBD e analisa os impactos da decisão na prática clínica brasileira. Crédito: Arquivo pessoal.
Dr. Guilherme Nery, médico com atuação em medicina canabinoide e psiquiatria. (Arquivo pessoal)

Para o médico Guilherme Nery, que atua em medicina canabinoide e psiquiatria, a identificação de um padrão de uso seguro e moderado não se baseia em um único critério.

Na prática clínica, segundo ele, a análise envolve “um conjunto de variáveis clínicas, comportamentais e contextuais”, incluindo histórico familiar de psicose ou esquizofrenia, histórico pessoal de doenças cardiovasculares e o próprio histórico de uso de cannabis — que precisa ser caracterizado para compreender o padrão de consumo.

Ele destacou que o critério mais robusto é a frequência de uso. Segundo explicou, o consumo não diário, com intervalos claros entre as administrações, está associado a menor probabilidade de desenvolver sintomas compatíveis com transtorno por uso.

“O consumo não diário, com intervalos claros entre as administrações, está consistentemente associado a menor probabilidade de desenvolver sintomas compatíveis com transtorno por uso”, afirmou.

Por outro lado, ele alerta que, quando o uso se torna cotidiano — especialmente matinal e automático — o risco aumenta de forma progressiva.

“Assim, mais do que perguntar ‘usa ou não usa’, é fundamental investigar quantas vezes por semana, em que horários e com qual padrão de regularidade”, analisou.

Outro marcador central, segundo Nery, é a preservação funcional. Ele explica que pacientes que mantêm desempenho ocupacional, relações interpessoais estáveis e rotina organizada tendem a apresentar perfil de menor risco.

“A funcionalidade global é um marcador mais sensível do que a quantidade absoluta consumida”, afirmou.

Ele ressalta ainda que há pacientes que consomem volumes elevados a ponto de se tornarem disfuncionais, e que, nesses casos, é necessário identificar há quanto tempo essa desfuncionalidade ocorre para reduzir suas repercussões.

 

Uso simultâneo com tabaco exige alerta clínico

 

Ao comentar os dados do estudo sobre uso concomitante de substâncias, Nery foi direto: quando há associação com tabaco, o alerta clínico é imediato.

Segundo ele, a nicotina tem alto potencial de reforço dopaminérgico e condicionamento comportamental rápido. A mistura de cannabis com tabaco — seja em cigarros combinados ou entre pacientes que já são fumantes — aumenta a probabilidade de consumo repetitivo e menos intencional.

“O risco não decorre apenas da soma de substâncias, mas da interação comportamental: a nicotina fortalece o circuito de recompensa e pode facilitar a escalada do uso da cannabis”, afirmou.

 

Ansiedade, depressão e a importância de identificar a raiz do comportamento

 

Em relação à saúde mental, o psiquiatra reforça que a redução de danos começa antes mesmo da prescrição.

“Redução de danos começa por tentar entender a origem dos sintomas”, afirmou.

Ele explica que é fundamental investigar o que levou o paciente a estar ansioso ou deprimido, destacando que, frequentemente, há um evento raiz associado ao padrão de abuso de substâncias.

“Quase todo paciente que comete abuso de substância tem um acontecimento raiz que o levou à esse comportamento disfuncional e que o conforto que o uso de Cannabis traz, pode ser um caminho para um comportamento disfuncional.”

Para ele, trabalhar essa origem pode ser determinante para o desenvolvimento de insight por parte do paciente.

“Conseguir abordar isso pode ser o caminho para o paciente desenvolver insight sobre o seu próprio padrão de consumo”, analisou.

 

Idade, vulnerabilidade cerebral e estratégias de prescrição

 

A idade também exerce influência significativa no risco de dependência e na forma de prescrição, segundo o médico.

“Com certeza, temos algumas evidências que apontam para as proporções corretas que cada faixa etária irá tolerar melhor”, afirmou.

No caso de crianças, ele destacou o uso de formulações específicas, “sabemos que o uso do CBD Full Spectrum (20:1) - Isso quer dizer que a cada 20mg de CBD tem 1mg de THC naquele frasco - é seguro e bem tolerado e inclusive estatisticamente mais eficaz do que o uso do CBD Isolado para o contexto do Autismo - segundo uma entrevista que conduzi com o pesquisador Adi Aran (Israel) - que é o maior pesquisador do mundo neste assunto -”

Ele reforçou ainda uma afirmação do pesquisador: “Parece que precisamos de pelo menos UM POUCO DE THC JUNTO DO CBD PARA TER OS MELHORES RESULTADOS” — Adi Aran.

Do ponto de vista neurobiológico, Nery destaca que adolescência e início precoce representam o período de maior vulnerabilidade, já que o cérebro ainda está em maturação, especialmente regiões pré-frontais envolvidas em controle inibitório, planejamento e regulação emocional.

Segundo ele, início antes dos 18–21 anos, uso frequente e alta potência estão consistentemente associados a maior risco de transtorno por uso ao longo da vida. Por isso, em pacientes jovens, a indicação deve ser mais criteriosa, com formulações não psicoativas, objetivos terapêuticos claros e monitoramento próximo.

Na faixa dos 30 anos — como apontado no estudo — ele observa que a maioria dos usuários não desenvolve dependência, possivelmente devido à maior estabilidade ocupacional, social e identitária, fatores que atuam como proteção.

Ainda assim, ele alerta que padrões diários, consumo matinal, uso para regulação emocional crônica ou associação com outras substâncias permanecem como marcadores de risco, independentemente da idade.

Em adultos acima de 50–60 anos, o risco de dependência tende a ser menor do que em jovens, mas surgem outras variáveis clínicas relevantes, como interações medicamentosas, polifarmácia, alterações cognitivas, função cardiovascular e risco de quedas.

“A prescrição deve seguir o princípio de ‘start low, go slow’, com titulação ainda mais cautelosa”, afirmou.

Ele acrescenta que idosos toleram mais THC e que é possível pensar em proporções equilibradas. “Podemos tranquilamente pensar em proporções equilibradas (1:1 / Balanceadas / Mistas) - pois o idoso está com suas funções cerebrais mais consolidadas, rígidas.”