Cannabis medicinal: a história de Letícia Laranjeira entre ativismo e cuidado
Da descoberta terapêutica no tratamento da endometriose à criação da Psicocannabis, psicóloga constrói uma rede de formação e acolhimento em saúde mental
Publicada em 26/02/2026

Letícia Laranjeira durante o 12º Congresso Nacional de Psicologia de São Paulo (COREPSI). Imagem: Angelo Cuissi
A trajetória de Letícia Laranjeira com a cannabis medicinal é marcada por uma convergência entre a necessidade pessoal de saúde, o ativismo e o compromisso social.
Psicóloga e fundadora da Associação Canábica de Psicologia, Educação e Cultura (Psicocannabis ), ela transformou sua convivência com a endometriose e sua herança cultural em uma rede de acolhimento e formação profissional. Em 2025, a rede se oficializou como associação, dando um novo passo. Hoje, contam com cerca de 80 associados e uma diretoria liderada exclusivamente por mulheres e pessoas trans.

O trabalho da Psicocannabis nasceu da urgência de unir a psicologia ao estudo da planta, movimento que ganhou força durante a pandemia de Covid-19, em 2020. O que começou como um projeto de psicoeducação cresceu para se tornar um coletivo de profissionais em 2021 e, dois anos depois, foi fundamental para a realização do 1º Congresso de Psicologia e Cannabis, ocorrido em Minas Gerais.
"Foi um grande projeto psicossocial, que cumpriu seu papel da época", avalia Letícia sobre o início da iniciativa. Hoje, a associação atua em frentes clínicas, educativas e sociais, apostando em uma visão histórica e crítica.
"Temos um cuidado muito grande com os profissionais aqui presentes, apostamos em uma visão social, história, contra o racismo e a mentira da 'cannabis branca'", afirma.
Raízes e a descoberta terapêutica
A relação de Letícia com a planta remonta à sua história familiar de "mulheres erveiras", onde a maconha era vista como "mais uma planta de poder, com ajuda em várias patologias e dores do dia a dia". Seu primeiro contato com o uso adulto ocorreu há cerca de 25 anos, durante a graduação em psicologia na USP.
Na época, mesmo sem saber, Letícia sentia o potencial da substância para controlar a ansiedade durante os primeiros passos da vida universitária.
Ainda na faculdade, Letícia convivia com dores constantes que, apenas em 2006, seriam diagnosticadas como endometriose. "A descoberta da doença veio depois de descobrir o quanto a cannabis podia me ajudar Ela estava lá, ao meu lado, quando a endometriose era apenas dores constantes e intensas", relembra.
Antes de consolidar o uso medicinal, Letícia teve uma intensa atuação militante. Em 2003, participou da organização da Marcha da Maconha, antes mesmo da unificação nacional do movimento, e do primeiro Encontro Nacional dos Estudantes Maconheiros de Psicologia (ENemP).
Contudo, por volta de 2005, desconectou-se da militância devido à entrada de novos atores políticos e dedicou-se às artes, integrando o grupo de teatro Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes por oito anos.
O retorno à cannabis e o alívio da dor
A retomada do olhar para a maconha ocorreu por intermédio do Padre Ticão, liderança da Zona Leste de São Paulo. Além de voltar ao ativismo, Letícia recebeu ajuda do padre para tratar um familiar em estado grave e, posteriormente, iniciou seu próprio tratamento com o óleo medicinal.
"Era outra etapa da vida. Um olhar atento para a saúde mental, qualidade de vida, auxílio das dores, foi uma virada", relata. A psicóloga recorda que, antes do óleo, passava "semanas com dor, ou com problemas devido ao tratamento convencional".
Atualmente, ela utiliza óleos equilibrados ou com alto teor de tetrahidrocanabinol (THC), combinados a tratamentos alopáticos, mantendo um quadro estável. "Minha última crise foi na época do Padre Ticão, quando devido a problemas no correio fiquei cerca de um mês sem óleo", conta.
Para a ansiedade, utiliza uma composição de canabidiol (CBD) e canabigerol (CBG), que auxilia no foco e no controle do estresse, fator gatilho para suas dores.
Formação e acolhimento

A experiência pessoal de Letícia reverbera em sua prática profissional. "Ter a vivência no corpo me ajuda a auxiliar o outro. Ela não é necessária, mas me ajudou como profissional", explica.
Na Psicocannabis, essa troca é incentivada através de espaços de "co-visão", onde psicólogos de diferentes abordagens e uma equipe de médicas discutem casos clínicos.
"É muito rico ouvir e compartilhar visões em relações a casos de pacientes, sempre com a 'maconha' como ponto central", conclui a fundadora, reforçando o compromisso da associação com uma abordagem humana e cientificamente embasada.
A luta não pode parar
Em 2026, o trabalho de Letícia Laranjeira à frente da Psicocannabis ganha novos contornos e não dá sinais de pausa. A associação está entre as oito iniciativas contempladas pelo 3º Edital de Emendas, que destinou R$ 1,25 milhão para ações voltadas ao setor da cannabis medicinal.
Anunciado em janeiro, o edital selecionou o projeto “Flor e Liberdade: Arte e Cuidado para Mulheres Sobreviventes do Cárcere”, que recebeu R$ 200 mil para promover acolhimento, cuidado em saúde mental e reinserção social de mulheres egressas do sistema prisional.
Encabeçada pela Psicocannabis em parceria com o Centro de Convivência É de Lei, a iniciativa aposta na articulação entre arte, apoio psicossocial e educação em cannabis medicinal como ferramentas de reparação e autonomia.


