Médica transformou a própria história com o pai em missão com a cannabis
A médica Caliandra transformou a busca por aliviar o sofrimento do pai em missão profissional, encontrando na cannabis um caminho de cuidado, ciência e esperança
Publicada em 15/01/2026

Ela estudou medicina para entender o sofrimento do pai e encontrou na cannabis um novo sentido de cuidar | Arquivo Pessoal
O sofrimento sempre esteve sentado à mesa da família de Francisco Alves de Assis, de 71 anos. Por mais de quatro décadas, a dor acordava com ele, atravessava seus dias e o acompanhava nas noites mal dormidas. A fibromialgia não apenas consumia seu corpo, mas também roubava o descanso, o humor, o sentido das coisas. E, em silêncio, também moldava o destino da filha.
Antes de ser médica, Caliandra Patrícia Pinheiro Alves de Melo foi enfermeira. Foram seis anos cuidando de pessoas e, ainda assim, sentindo-se incapaz de aliviar quem mais amava.
A enfermagem lhe ensinou o zelo, o toque, a presença. Mas não bastava. Faltava compreender a fundo a condição do pai, decifrar a doença que o aprisionava. Foi desse incômodo diário, quase insuportável, que nasceu a decisão de cursar medicina.
Quando cuidar não era suficiente
O caminho, no entanto, foi tudo menos romântico. Recém-divorciada, com uma filha de apenas três anos, Caliandra seguiu praticamente sozinha. Foram anos difíceis, atravessados por cansaço, medo e renúncias. Ainda assim, ela não desistiu. Quando se formou, sentiu-se invencível, como se, enfim, tivesse nas mãos as ferramentas para devolver ao pai aquilo que a doença havia tirado.
A realidade veio dura. Nenhuma combinação de medicamentos funcionava. Pregabalina, duloxetina, clonazepam, ciclobenzaprina, corticoides, analgésicos. Nada. O sofrimento persistia. E a frustração se acumulava nela, nele, na família inteira que depositava esperança naquela filha agora médica. A medicina que ela estudara não estava conseguindo salvar quem mais importava.
Conviver com 45 anos de fibromialgia deixou marcas profundas. Francisco vivia com limitações diárias, ansiedade, depressão e noites interrompidas. Não havia prazer, nem perspectiva. Em alguns momentos, ele dizia que não fazia sentido viver daquele jeito. Para Caliandra, ouvir isso era sentir o peso dobrado, o dele e o próprio.
A planta, a fé e a primeira esperança
Foi em 2018, já dois anos formada, que uma nova possibilidade apareceu. Pesquisando alternativas, Caliandra chegou à cannabis medicinal. Ainda sem domínio técnico, sem cursos, sem estudos robustos disponíveis, decidiu tentar. Comprou um óleo de uma associação local e iniciou a parte mais delicada da jornada: convencer o pai.

O preconceito foi imediato. Para um sertanejo tradicional, católico praticante, a cannabis carregava o peso do pecado. Ele resistiu. Questionou. Temia o julgamento alheio. “Minha filha, eu tô ficando velho, não doido. Já imaginou eu, depois de velho, usando maconha? O que vão pensar de mim?”, dizia.
A conversa foi longa, cuidadosa, sustentada pelos poucos embasamentos científicos que ela tinha à época. A aceitação veio devagar. E, em segredo, pai e filha buscaram também uma bênção simbólica: conversaram com o padre da paróquia. A resposta foi simples e definitiva: a planta era de Deus, da natureza, e estava sendo usada em benefício da saúde. Aquela frase dissolveu a culpa e abriu espaço para a esperança.
Vinte dias depois, a mudança começou a aparecer. Poucas gotas por dia. Francisco, que antes avaliava seu estado entre 8 e 9 numa escala de intensidade, passou a relatar 3 ou 4. O sono melhorou. O humor se transformou. As limitações ficaram mais leves. Ele retomou o prazer nas pequenas coisas e, surpreendentemente, abandonou todas as medicações alopáticas que usava.
Da experiência íntima à missão profissional
Para Caliandra, aquele foi um marco irreversível. Como filha, sentiu uma alegria impossível de medir. Como médica, entendeu que precisava aprender de verdade. Não poderia transformar pacientes em experiências empíricas como fizera dentro de casa. Era preciso estudar o sistema endocanabinoide, os receptores CB1 e CB2, a farmacologia da planta. E ela estudou.
Vieram os cursos, os certificados, as noites de leitura, sempre com o apoio do companheiro Ítalo, que segurava sua mão quando era preciso pausar outros projetos para seguir aprendendo. A busca que começou no quintal da própria história virou missão profissional. Hoje, são cerca de cinco mil pacientes acompanhados, vidas atravessadas pela mesma esperança que um dia transformou a rotina de seu pai.
Há uma frase que Caliandra escuta com frequência e que a emociona todas as vezes: “Doutora, graças a você e ao tratamento com fitocanabinoides, eu voltei a viver”. É ali que ela sente que tudo fez sentido.

Em 2024, a vida voltou a surpreendê-la. Seu filho, Bruno Henrique Pinheiro de Melo, então com quatro anos, recebeu o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Mesmo sendo médica, mesmo atendendo pacientes autistas, o chão faltou. Houve choro, medo e silêncio. O receio do preconceito adiou a conversa com a família. Mas, mais uma vez, a experiência trouxe propósito.
Caliandra não hesitou. A cannabis, que já havia devolvido vida ao pai, também seria parte do cuidado com o filho. O tratamento trouxe resultados. Hoje, Bruno é TEA nível 1 de suporte. Quem o vê, muitas vezes, sequer percebe. E ela sabe: sua missão agora também é acolher outras mães atípicas.
Entre o pai de 71 anos e o filho de 6, Caliandra construiu uma trajetória atravessada por limites, amor e ciência. Uma médica que um dia se sentiu incapaz diante do sofrimento de quem mais amava, hoje leva mais cores para a vida de milhares de pessoas. E segue estudando, todos os dias, para honrar a origem de tudo: o amor que nasce da vulnerabilidade e insiste em virar cuidado.
Veja a explicação da profissional da saúde sobre o caso:



