Com câncer avançado, “O Bom Sujeito” organiza velório em vida e relata uso de cannabis medicinal
Advogado de Campo Grande, Tiago Pitthan organiza velório em vida, cria arte simbólica e relata como a cannabis medicinal ajudou durante o tratamento contra o câncer
Publicada em 19/03/2026

Tiago Pitthan, advogado de Campo Grande, em arte simbólica do velório em vida durante tratamento contra câncer com uso de cannabis medicinal. foto: Arquivo Pessoal
Em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, o nome de Tiago Pitthan ecoa entre abraços, histórias e mesas cheias de amigos. Advogado, 47 anos, ele construiu ao longo da vida uma rede afetiva tão extensa quanto o apelido que carrega desde a adolescência: “O Bom Sujeito”.
Em 2024, veio o diagnóstico de câncer no estômago. Com o avanço da doença e a metástase agora em 2026, Tiago passou a encarar uma realidade sem possibilidade de cura. Mas, em vez de se recolher, decidiu abrir as portas, e o coração, para um gesto incomum: organizar o próprio velório em vida.
A proposta, segundo ele, não é sobre despedida, mas sobre presença. Um encontro entre pessoas que fizeram parte da sua história e uma celebração do que foi vivido até aqui.
Cannabis medicinal como aliada durante a quimioterapia
No meio da rotina intensa de tratamentos, Tiago enfrentou desafios comuns a muitos pacientes oncológicos: a dificuldade de se alimentar, a perda de apetite e as noites mal dormidas.
Foi nesse contexto que a cannabis medicinal entrou em sua trajetória, não como primeira opção, mas como busca pessoal por alívio. “Foi uma busca pessoal, não tava conseguindo comer, tava tendo fome, dificuldade pra dormir, aí eu fui atrás e consegui um óleo artesanal”, contou em entrevista exclusiva ao Portal Sechat.
O uso do óleo de cannabis em tratamentos oncológicos, rico em THC, trouxe efeitos que ele descreve de forma direta e sem rodeios. “Para mim foi tranquilo... relaxou... deu fome... e durante a químio também ajudou”, relatou.
A experiência reflete o que especialistas em cuidados paliativos vêm observando: compostos da cannabis podem atuar no controle de sintomas como náuseas, inapetência, insônia e desconfortos associados ao tratamento oncológico, contribuindo para a qualidade de vida dos pacientes.
Uma imagem que provoca e convida à reflexão
Para anunciar o “Velório em Vida”, Tiago foi além do convite tradicional. Ele mesmo idealizou uma arte simbólica e provocativa: aparece com os braços cruzados sobre o peito, simulando a posição em um caixão, com algodões nas narinas, elementos que remetem ao ritual da morte, mas que, em seu caso, ganham novos significados.

A imagem, compartilhada entre amigos e nas redes, chama atenção não apenas pelo impacto visual, mas pelo contraste com a proposta do encontro: celebrar a vida ainda em curso.
Ao falar sobre a doença, Tiago não nega a gravidade do momento, mas também não se deixa definir por ela: “o câncer me tem, mas eu não o tenho". A frase resume uma postura que mistura consciência e leveza. É com esse mesmo olhar que ele decidiu transformar o que seria um rito de despedida em uma experiência compartilhada em vida.
Uma despedida que não é triste
Organizar um velório em vida ainda é um tema cercado de tabus. Mas, para Tiago, a escolha é coerente com a forma como sempre viveu: cercado de gente e de significado.
“Lido com bom humor, com otimismo.. morte é só um detalhe, o que importa é a vida que levo e com quem compartilho ela.. e compartilho com muita gente boa, tenho muita sorte”, disse.
Mais do que um evento, a celebração carrega um desejo mais profundo. “Espero, e esse quero que seja meu legado, que as pessoas vejam que a vida presta! Que os problemas são inevitáveis, mas só você pode controlar a forma de lidar com eles".
A proposta, segundo ele, é mais simples do que parece: “Espero que sintam a leveza que quero transmitir.. não será uma despedida triste, será uma celebração da minha vida.”
O legado de “O Bom Sujeito”

Entre tratamentos, encontros e escolhas, Tiago segue construindo sua narrativa com autonomia. Ao final da conversa, ao ser convidado a definir o próprio apelido, "O Bom Sujeito", ele respondeu como quem traduz uma vida inteira em poucas palavras:
“Alguém que ama viver, ama a vida, leva ela com leveza e bom humor e entende que ela vale a pena quando compartilhada".
No percurso, a cannabis medicinal também ocupa um espaço de cuidado especialmente no contexto paliativo. Segundo ele, foi uma experiência positiva, que trouxe conforto em um dos momentos mais desafiadores da sua jornada. E, talvez, seja justamente aí que sua história encontra eco: na possibilidade de falar sobre dor sem perder a delicadeza, e sobre despedida sem abrir mão da vida.

