Embrapa aponta caminhos para o cultivo de cannabis no Brasil, afirma Beatriz Emygdio

Pesquisadora da Embrapa Clima Temperado defende avanço regulatório, fortalecimento científico e cultivo nacional como estratégia para reduzir custos da cannabis medicinal no Brasil

Publicada em 19/02/2026

Pesquisadora da Embrapa comenta decisões da Anvisa sobre cultivo e pesquisa com cannabis no Brasil.

Pesquisadora da Embrapa comenta decisões da Anvisa sobre cultivo e pesquisa com cannabis no Brasil.

 

A cannabis medicinal no Brasil avança em ritmo gradual, mas estratégico. Em entrevista ao portal Sechat, a pesquisadora Embrapa Clima Temperado Beatriz Emygdio analisou o cenário atual do setor, destacando o papel da ciência nacional, das associações de pacientes e a necessidade de amadurecimento regulatório para viabilizar o cultivo em solo brasileiro.

Segundo ela, o país vive um momento de transição entre um mercado ainda dependente de importações e a construção de uma base produtiva própria, com potencial agrícola competitivo.

"Estamos vivendo um momento de transição. A RDC 327 foi o primeiro passo, mas para que o Brasil se torne uma potência no setor, precisamos discutir o cultivo em solo brasileiro com seriedade técnica."

Associações são protagonistas na democratização do acesso

 

Durante a entrevista, Emygdio ressaltou que as associações de pacientes desempenham um papel central na ampliação do acesso à cannabis medicinal, especialmente para famílias de baixa renda que enfrentam dificuldades com produtos importados de alto custo.

"O papel das associações no Brasil é histórico e fundamental; elas não apenas fornecem o produto, mas acolhem o paciente que o sistema de saúde tradicional muitas vezes ignora."

Para a pesquisadora, essas organizações ajudaram a estruturar o debate público e jurídico sobre o tema, além de impulsionar a discussão sobre cultivo nacional.

RDC 327 e os limites da regulamentação atual

 

A entrevista também abordou a RDC 327, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que regulamenta a comercialização de produtos à base de cannabis no país. Embora reconheça os avanços proporcionados pela norma, Emygdio defende que o próximo passo seja a autorização clara para o cultivo por empresas e instituições de pesquisa.

A dependência de matéria-prima importada ainda impacta diretamente os preços finais ao paciente, tornando o tratamento inacessível para parte da população.

Educação médica ainda é gargalo

 

Outro ponto crítico levantado na conversa foi a formação médica. De acordo com a pesquisadora, o desconhecimento sobre o sistema endocanabinoide nas graduações em medicina ainda gera resistência na prescrição.

"A maior barreira hoje não é mais a lei, mas o conhecimento. O médico precisa entender que a cannabis não é uma 'alternativa mágica', mas uma ferramenta terapêutica baseada em ciência robusta."

Ela reforça que a ampliação do debate científico e a inclusão do tema nos currículos universitários são essenciais para consolidar o mercado de cannabis medicinal no Brasil com segurança e responsabilidade.

Novo perfil do paciente e expansão do mercado

 

Se inicialmente a demanda estava concentrada em casos de epilepsia refratária, o cenário atual aponta para um aumento na busca por tratamentos relacionados à dor crônica, ansiedade e distúrbios do sono.

Para Emygdio, o potencial de crescimento é expressivo, mas exige maturidade empresarial.

"O mercado brasileiro de cannabis é um gigante adormecido. Quem entender primeiro que o foco deve ser na qualidade e na educação do paciente, e não apenas no lucro imediato, sairá na frente."

Perspectivas

Com base na experiência da pesquisa agrícola nacional, a especialista avalia que o Brasil possui condições climáticas, técnicas e científicas para se tornar protagonista global na produção de cannabis medicinal, desde que o ambiente regulatório avance com segurança jurídica.

O cenário, segundo ela, é de otimismo cauteloso: há expansão, há ciência, há demanda — mas o futuro dependerá da capacidade do país de integrar pesquisa, regulação e acesso.

 

Veja a entrevista completa: