Hempcrete pode ser aliado na construção de casas populares

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Por Marcelo De Vita Grecco*

Existe um dado no Brasil que, volta e meia, ganha destaque no noticiário: o déficit habitacional brasileiro. Um problema crônico que o País convive há várias décadas. Entra governo; sai governo, e essa questão parece insolúvel. Alguns investem mais, outros menos, mas o fato é que o Brasil ostenta ainda hoje um dos maiores déficits habitacionais do mundo.

Se já era ruim, ou se nunca chegou a ser boa, lamentavelmente, com a pandemia essa estatística tende a piorar. Somam-se agora ao contingente daqueles que nem têm onde se abrigar, famílias que perderam emprego e renda e, com isso, a capacidade que ainda tinham de pagar aluguel.

Estima-se que o ônus excessivo com aluguel urbano corresponda hoje a mais de 3 milhões de habitações. Quase 1,5 milhão de residências são habitações precárias e mais de 1,3 milhão são coabitações. Isso representa quase 6 milhões de moradias irregulares que, na realidade, se traduzem em ocupações, invasões, palafitas e favelas, que amplificam ainda mais nossas desigualdades.

Essa situação me incomoda como ser humano e me entristece como brasileiro. Um País cheio de riquezas, mas que não consegue abrigar, decentemente, parcela significativa de seus conterrâneos. Essa é uma das mazelas que ainda espero ver equacionada num futuro que, torço, não seja longínquo. 

A natureza agradece – Se você chegou até aqui deve estar se perguntando por que decidi ocupar este espaço para discutir tal assunto. Muitos também estão habituados a me ouvir falar das milhares de aplicações do cânhamo em diversos segmentos. Pois é, esse é o ponto a que quero chegar. O hempcrete, ou cimento feito à base de cânhamo.


Imagine se, em algum programa voltado à construção de milhares de casas populares, fosse possível usar em larga escala o hempcrete? No mínimo, a natureza agradeceria. Essa mistura de cal especial com fibras de cânhamo e água tem impacto ambiental muito menor do que a cadeia de produção do cimento convencional, que exige, lavra de calcário e argila, britagem, cozimento das matérias-primas em alto-forno, entre outras etapas, para a obtenção do clínquer, até se chegar ao cimento que conhecemos.

Enquanto a produção de cimento convencional, por razões óbvias, é fonte importante de liberação de CO2 na atmosfera, o concreto obtido a partir do cânhamo absorve carbono. Boa parte da emissão de CO2 do processo de transformação do cânhamo em hempcrete é sequestrada durante todo o ciclo de vida da planta.

É evidente que não estou afirmando aqui que o hempcrete irá substituir por completo o cimento convencional nas construções, até porque ele não é estruturante. Nem que resolveria o déficit habitacional. Mas já daria uma boa contribuição. Com certeza, ajudaria a reduzir o impacto ambiental das obras e ainda garantiria às edificações benefícios adicionais, como isolamento térmico e acústico. Esse composto de cânhamo proporciona ainda às construções maior segurança, já que é resistente ao fogo, a fungos, pragas e mofos, sem deixar de ser forte e ao mesmo tempo leve e durável, por séculos, haja vista vestígios de construções com emprego de cânhamo desde a antiguidade.

Longe dos avanços – Países como os Estados Unidos, Austrália Nova Zelândia e Israel, para não avançar a lista, já descobriram essas vantagens e começaram a desenvolver e a utilizar essa tecnologia em construções de casas. Lá, ao contrário do Brasil, o cultivo, a importação e o uso do cânhamo são totalmente liberados. Mais uma vez, nosso país fica para trás, sem poder usufruir dos benefícios dessa planta, também na construção civil.

Enquanto a Portaria 344 da Anvisa equiparar o cânhamo a  produtos entorpecentes, continuaremos assistindo de longe os avanços no emprego da planta nas mais variadas indústrias. Se, ao menos a Anvisa liberasse a importação dessa matéria-prima, que não canso de repetir, não provoca nenhum efeito psicoativo, já poderíamos  avançar em pesquisa e desenvolvimento, formação da cadeia produtiva equilibrada e incentivo ao nascimento de um mercado sustentável de cânhamo brasileiro. 

Com toda a criatividade e o empreendedorismo de nossas startups, aceleradas por nós ou por outros players, certamente, reduziríamos um pouco esse gap que temos em relação a outros mercados, que já começam a utilizar o cânhamo, até mesmo na indústria da construção civil. 

Num cenário futuro, com a cadeia produtiva estabelecida, e com o plantio e utilização do cânhamo legalizados no Brasil, teríamos matéria-prima e mercado para usar a planta em sua plenitude de aplicações, incluindo o hempcreate e outros materiais, como pisos de madeira à base de cânhamo, por exemplo. 

Nesse ponto, retorno ao meu raciocínio inicial. Com oferta abundante e tecnologia nacional, o cânhamo se tornaria um insumo acessível e de baixo custo para a construção de casas populares no Brasil. E para outros fins, naturalmente, robustecendo a economia, gerando emprego, renda e impostos.

 Infelizmente, neste momento, isso ainda é um sonho distante. Mas, assim como o déficit habitacional, um dia “zeraremos” mais esta pendência que retarda o ingresso do Brasil na lista de países que enxergam todo o potencial econômico e social dessa planta.

*Marcelo De Vita Grecco é cofundador, head de Negócios da The Green Hub e colunista do Sechat

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e de responsabilidade de seus autores.

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