Autocultivo: primeiro paciente autorizado no Ceará relata dificuldades de cultivar o próprio remédio de cannabis

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Rodrigo Bardon foi o primeiro cearense adulto a ter um salvo-conduto do Estado do Ceará para o cultivo doméstico. (Créditos da imagem: Arquivo pessoal)

Curadoria e edição Sechat, com informações de Diário do Nordeste (Thatiany Nascimento/Nícolas Paulino)

Obter na Justiça o direito de cultivar em casa o próprio remédio. Um feito se considerados os entraves que circundam o uso da cannabis medicinal. Mas, nesse processo, a liberação legal é, de fato, apenas uma das inúmeras etapas.

Para quem é autorizado a plantar na residência, além de recursos financeiros para estruturar a plantação, carece, dentre outras assistências, de capacitação e colaboração para não ver a matéria-prima do tratamento tomada por pragas ou outros males que possam arruiná-la.

Entre o período em que sofreu um acidente e fraturou a coluna cervical, ficando tetraplégico, e o dia 15 de setembro de 2017, data em que conseguiu na Justiça o direito de cultivar Cannabis para finalidade medicinal no próprio apartamento, passaram-se 12 anos na vida do servidor público Rodrigo Bardon. Ele foi o primeiro cearense adulto a ter um salvo-conduto do Estado do Ceará para o cultivo doméstico. Atualmente, em todo o Brasil, mais de 300 decisões judiciais favoráveis foram concedidas, de acordo com o Cannabis Monitor, para cultivo da maconha medicinal em casa.

Nesse intervalo, as dores, sobretudo aquelas mais concentradas em toda a região do tronco, destaca ele, foram intensas. Misturadas a elas, Rodrigo sentia espasmos musculares e dificuldades para dormir. 

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Dois anos após o acidente, ele tentou em Portugal uma cirurgia com células-tronco. “De lá, eu voltei tomando analgésico porque a cirurgia foi muito dolorosa, e as dores que eu sentia, que eram intermediárias, começaram a ficar muito fortes”, revela.

cannabis
O servidor público Rodrigo Bardon faz uso da terapêutica para aliviar dores persistentes e incômodos decorrentes de um acidente. (Créditos da imagem: Arquivo pessoal)

Buscar um tratamento alternativo era mais que uma vontade. Para Rodrigo, foi a única forma de tentar ter qualidade de vida. Em 2013, conta ele, fez uso da cannabis sob a forma de cigarro. “No outro dia eu acordei super bem, com o corpo relaxado. E comecei a pesquisar sobre o uso da cannabis medicinal”, explica. 

Rodrigo partiu em busca de médicos que pudessem auxiliá-lo nessa possível terapêutica e de orientações sobre a forma de uso da planta.

“Tive que trazer um médico de Recife para cá (Fortaleza), para avaliar meu caso. E ver o que eu poderia fazer. Depois de quase 10 anos, eu consegui me livrar do Tramal (analgésico) e do Dormonid (anestésico)”. “Por muito tempo, eu fiz o óleo e fiz o uso inalado, com o vaporizador. Eu optei pelo vaporizador. No vaporizador coloca uma dose pequena. Coloco só um pouco da erva triturada e vaporizo. A vaporização deve durar uns 5 minutos, como se fosse uma nebulização”. 

Rodrigo Bardon, paciente que faz uso da cannabis medicinal

Percurso até conseguir

Por saber da própria condição, das dores persistentes, dos incômodos, Rodrigo ressalta que, convencido das melhoras trazidas a partir do uso da Cannabis, ingressou na Justiça do Ceará requerendo o direito de plantar em casa.

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Foram inúmeras páginas de documentos e laudos na tentativa de comprovar formalmente todo o percurso de dificuldades, bem como o efeito medicinal positivo após o uso, e a melhora do quadro de saúde. Ele teve êxito. Mas, após a decisão, vieram os novos desafios: como cultivar e manter as plantas saudáveis?  

“Eu moro em apartamento”, registra ele e acrescenta que, devido à própria condição – com limitações de movimentos – é necessário ensinar aos cuidadores como cultivar a planta. “Tinha luz, ar condicionado. Eu tinha que criar um microclima. Ela é uma planta que aguenta calor, mas não pode ficar abafada. Tinha que usar três ou quatro luzes de 600wts”. Para garantir os cuidados, o custo é alto. Hoje, os cultivos de Rodrigo estão desativados. “Vou ficar assim até eu conseguir sementes que crescem com determinada quantidade de luz”, afirma ele, e completa: “Já perdi cultivos de três meses por conta de praga. Foram dois meses e meio pagando luz a R$1.500 e eu tive que jogar no mato”, lamenta Rodrigo Bardon.

Uma das formas de minimizar esse problema, na avaliação de Rodrigo, é a atuação em entidades coletivas, como as associações. “A gente prega a independência do próprio paciente no qual ele consiga plantar e fazer o cultivo em casa, e a associação serviria para dar um suporte para aquela pessoa”. Individualmente, acrescenta ele, “acaba sendo muito trabalhoso”. 

“O importante é que esse tema comece a ser divulgado porque é só com a legitimação da sociedade que a gente vai quebrar os tabus que existem em relação à maconha e ela vai ser vista como um tratamento normal, como qualquer outro”. 

Rodrigo Bardon

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Sativoteca: um acervo científico sobre Cannabis

No percurso, Rodrigo Bardon que é usuário da Cannabis medicinal e militante pela regulamentação do uso, criou um acervo científico digital sobre a cannabis: a Sativoteca. Rodrigo reúne e disponibiliza virtualmente um repositório com a produção científica e acadêmica de várias instituições de ensino ou pesquisa sobre a planta. 

O nome, diz o site, “é a junção do radical Sativo-, derivado do nome Sativa (espécie da planta Cannabis), com o sufixo -teca, que exprime a noção de coleção ou local de armazenamento”. O objetivo é “organizar essas informações e torná-las acessíveis e úteis às pessoas que buscam esse conhecimento específico”.

Para consultar acesse: https://sativoteca.org/

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