THC: a principal molécula medicinal da cannabis

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(Foto: Arquivo)

Por Marco Algorta

Começarei repetindo o título: o THC é a principal molécula medicinal da cannabis. Esta é uma afirmação, estadísticamente, irrefutável. Se analisarmos os dados, desde 1996, com a aprovação do uso medicinal da cannabis na Califórnia e a volta à normalização do seu uso depois do parêntesis proibicionista, e ponderando os tipos de produtos que usam os pacientes, essa verdade é esmagadora. Somados os dados dos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Portugal, Dinamarca, Israel e toda a América Latina, veremos facilmente que a maioria dos pacientes usam produtos regulados pelas autoridades sanitárias competentes com concentrações importantes de THC.

Entendo, entretanto, perfeitamente, de onde vem a confusão em considerar o CBD a molécula medicinal da cannabis.

A primeira razão é histórica. O documentário de Sanjay Gupta sobre Charlotte Figi de 2013 foi um verdadeiro divisor de águas na opinião pública sobre os usos medicinais da cannabis. A partir desse dia, a cannabis deixou de ser a droga malvada que nos quiseram convencer que era durante os últimos 70 anos. E no Brasil não foi diferente. O documentário Ilegal, do talentosíssimo Tarso Araújo, sobre o caso da paciente Anny Fischer também teve o mesmo efeito catalizador na opinião pública brasileira sobre os benefícios da cannabis medicinal. Muito devemos a essas iniciativas. Ambos esses documentários contam histórias de crianças com epilepsias refratárias ou de difícil controle. E, nesses casos, são as altas concentrações de CBD que ajudam os pacientes a controlar suas convulsões.

A segunda razão é política. Desconstruir o falso discurso, promovido com recursos públicos, sobre os perigos da cannabis teria consequências. No intuito de encontrar um novo demônio na planta, e poder continuar a perseguir e culpar os seus usuários, sem já poder deixar de reconhecer as suas propriedades medicinais, o THC surgiu como o novo vilão.

A terceira razão é moral. Em uma sociedade, na qual estamos juntando os cacos de um modernismo positivista enferrujado, qualquer efeito dissociativo é visto como um problema pelos dinossauros sanitários. O que eles ainda não entenderam é que não somos máquinas, e que essa ação do THC não é um efeito colateral, não desejado, mas sim parte do seu poder medicinal. Para nos preservarmos desse efeito dissociativo, entramos em uma nova alienação. 

O CBD gerou uma brecha, com a comprovação científica da sua eficácia para o tratamento das epilepsias de difícil controle, graças à qual os primeiros produtos conseguiram um estatuto de quase remédio. No Brasil, felizmente, já são dez os produtos com a autorização para a venda em farmácias.

Mas a realidade mostra que, para a maioria dos pacientes que precisam de derivados da cannabis para a saúde, os produtos com CBD não são suficientes. Pacientes com dores crônicas, pacientes em tratamentos de quimioterapia que sofrem com as náuseas e precisam ter mais apetite, pacientes que querem regular o sono ou controlar a ansiedade, para todos eles, a presença de THC é fundamental. Nas clínicas médicas especializadas em cannabis pelo mundo, essa é uma verdade absoluta. Os produtos que só contém CBD funcionam a princípio, mas perdem eficácia terapêutica rapidamente se não forem suplantados com formulações com THC. Em países como o Canadá, Alemanha, Portugal e Israel, autoridades sanitárias com políticas focadas nos pacientes geraram caminhos regulatórios para que eles possam ser tratados com as fórmulas adequadas de cannabis. Na América Latina, a Colômbia teve grandes avanços e o Brasil está caminhando nesse sentido.

Já está na hora da verdade ser dita e acabar com a alienação: a cannabis medicinal é, antes de tudo, THC.

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e não correspondem, necessariamente, à posição do Sechat.

Sobre o autor:

Marco Algorta mora no Uruguai e está na indústria da cannabis desde o começo. Ele foi um dos promotores da Câmara das Empresas de Cannabis Medicinal, sendo eleito o primeiro presidente. Marco deu palestras nos Estados Unidos, Canadá, México, Argentina, Uruguai e Brasil, é pai de cinco filhos e magister em narrativa e redação criativa.

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