Seria a cannabis capaz de combater a malária?

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(Foto: Pexels/Pragyan Bezbaruah)

Por João R. Negromonte

Entre as diversas descobertas do homem, como o fogo, a roda e a domesticação de cães, aparentemente, podemos adicionar também o tratamento da malária com cannabis. Dados contidos na farmacopeia mais antiga do mundo, datada com mais de 5000 anos, revelam que o uso medicinal de cannabis era uma prática comum contra a febre oriunda da malária. Mas, antes de sabermos mais sobre este importante estudo, é preciso entender um pouco mais sobre a doença. 

Onde surgiu, quais os efeitos e como tratar a malária?  

Geralmente transmitida pela picada de mosquitos do gênero Anopheles, que carrega o  parasita Plasmodium, a malária pode ter sua origem, segundo pesquisadores, no continente africano. 

A gravidade da doença varia de acordo com o tipo do protozoário (Plasmodium) encontrado. O mosquito transmissor da doença, por se tratar de um animal hematófago, ou seja, que depende do consumo de sangue para sobreviver, acaba infectando de maneira muito rápida e eficaz um grande número de pessoas. A picada deste inseto causa sintomas como dores de cabeça, calafrios, febre e enjoos. 

A ação do microrganismo parasitário (Plasmodium), por sua vez, é justamente a infecção dos glóbulos vermelhos, que através da picada da fêmea do mosquito, acaba infectando as células sanguíneas causando sua destruição e a cristalização do heme – um subproduto tóxico de seu consumo de hemoglobina chamado hemozoína – pois o parasita se alimenta apenas da globina.

Muitos anos mais tarde, um medicamento aprovado pela Food and Drug Administration (FDA), Dronabinol (cujo ingrediente ativo é o THC) foi identificado em um estudo de triagem virtual como sendo potencialmente eficaz contra cristais de hemozoína. 

Mas o que isso significa?  

Significa que, ao evitar essa bio-cristalização, o ciclo de crescimento do Plasmodium pode ser interrompido. Segundo artigo publicado em 1999, na revista Nature, a hemozoína é essencial para a sobrevivência do inseto e propagação da doença no organismo, isto é, eliminando essa substância, elimina-se o transmissor e a doença.

Um novo estudo feito por pesquisadores da Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul, mostrou que o THC inibiu o crescimento do parasita da malária, como esperado, porém o destaque ficou para o CBD, que apesar do efeito moderado contra o desenvolvimento do protozoário, inibiu a formação de β-hematina (hematina que estimula a síntese de globina), “alimento” principal do parasita. 

A coautora do estudo Ana Carolina Corrêa de Sousa, em entrevista para o portal The Cannabis Scientist, ressalta que “a Anandamida, um importante agonista (substância capaz de se ligar a um receptor celular e ativá-lo para provocar uma resposta biológica), produz um efeito benéfico no sistema hematológico, atuando diretamente nas hemácias humanas. Dessa maneira a Anandamida induz a apoptose (morte celular que serve como repositor residual do sistema imunológico) em uma variedade de células. Assim, ao estimular essa ação em camundongos infectados com Plasmodium, podemos notar que houve um combate à parasitemia prevenindo o curso letal da doença.”

Ao ser questionada sobre se a mesma ficou surpresa com a atuação do CBD na atividade antimalárica, a pesquisadora destaca:

“Eu ficaria surpresa se o CBD não mostrasse atividade alguma. Devido às evidências dos textos antigos e à semelhança química com o THC, a atividade antimalárica era esperada, mas a força da atividade foi surpreendente.”

Outro tema que foi colocado em questionamento foi se os profissionais da saúde estariam relutantes em utilizar o THC – devido ao seu princípio ativo – no tratamento da malária? A pesquisadora foi enfática em sua resposta:

“Absolutamente. A psicoatividade do THC traz barreiras ao seu uso medicinal, embora já esteja aprovado pelo FDA para tratar diversas patologias como dor crônica e sintomas decorrentes da quimioterapia.”

Por último, a dúvida que fica é a seguinte: é possível minimizar os efeitos psicoativos do THC e otimizar seus potencial terapêutico contra a malária? 

Bem, para a cientista ainda são necessárias algumas pesquisas e ensaios clínicos para  afirmar com precisão a eficácia dessa substância para essa terapia, no entanto, o estudo de outros canabinoides com intuito de entender a relação estrutura-atividade e o mecanismo de ação serviria como ferramenta de modificação molecular que reduziria os efeitos colaterais do componente, conclui a pesquisadora.

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