"Regulamentação da Anvisa está em total desconexão com realidade social do Brasil", diz Emílio Figueiredo

Para diretor da Rede Reforma, regulação "prioriza interesses empresariais, é excludente, elitizante, e mantem muitas pessoas que produzem e consomem a cannabis como forma de alívio do sofrimento na clandestinidade"

"Regulamentação da Anvisa está em total desconexão com realidade social do Brasil", diz Emílio Figueiredo

Por Emílio Figueiredo

Essa regulamentação votada na terça-feira pela Anvisa contraria todo o movimento social e processo histórico que vem acontecendo no Brasil. Embora as empresas estejam tentando construir outra narrativa, a realidade é que quem trouxe o uso da Cannabis como ferramenta terapêutica para o Brasil foram as próprias pessoas que a usam.

E quem primeiro apoiou os pacientes nessa luta foram os cultivadores domésticos de cannabis. Embora sempre tenha ocorrido a importação e uso de produtos industrializados, o cultivo doméstico e o uso de óleo feito em casa sempre ocorreu no Brasil, antes mesmo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária tomar ciência.

Agora a mesma Anvisa faz uma regulação priorizando os interesses empresariais, que vêm atuando cotidianamente com seu lobby em várias esferas do poder público. A questão é que nada é mais forte que o fato social, e o fato é que pessoas plantam a cannabis em casa e preparam o próprio remédio, inclusive com aval judicial. E essas pessoas também se organizam em redes como associações e grupos de trocas de informações, sendo que as associações além de prestar o acolhimento também auxiliam o cultivo e até mesmo fornecem o óleo para seus associados.

A regulamentação proposta pela Anvisa está em total desconexão com a realidade social do Brasil por ser restritiva, excludente e elitizante, mantendo muitas pessoas que produzem e consomem a cannabis como forma de alívio do sofrimento na clandestinidade. É um direito humano fundamental poder cultivar o próprio remédio, seja em casa ou em uma associação, e esse movimento da Anvisa apenas dá mais força à sociedade civil organizada para demandar pelo reconhecimento desse direito.