Uruguai reduz mercado ilegal de cannabis, mas 30% do consumo ainda ocorre fora da regulação
Avaliação oficial da Lei 19.172 aponta queda expressiva da cannabis ilegal no país, estabilidade nos indicadores de saúde e desafios na oferta regulada
Publicada em 16/03/2026

Mercado regulado de cannabis no Uruguai cresce, mas acesso paralelo ainda representa quase 30% do consumo no país | CanvaPro
Mais de uma década após se tornar o primeiro país do mundo a regulamentar a cannabis em nível nacional, o Uruguai apresenta avanços expressivos no controle do mercado. Ainda assim, o sistema regulado convive com desafios estruturais que impedem a absorção completa do consumo pelo circuito legal.
A segunda avaliação oficial da Lei 19.172, divulgada pela Agência Nacional de Controle de Drogas do Uruguai, aponta que o mercado regulamentado alcança atualmente 46,7% dos consumidores de cannabis. O relatório também mostra uma queda significativa na presença da cannabis prensada ilegal, que passou de 58,2% em 2014 para 6,7% em 2024.
Leia Também
Uruguai se posiciona como principal candidato a polo do Cânhamo após restrições rigorosas nos EUA
Uruguai estuda liberar venda de cannabis para turistas e não residentes para combater mercado ilegal
Apesar dos avanços, o documento indica que quase 30% do acesso à cannabis ainda ocorre em um mercado paralelo, revelando limites na capacidade do sistema regulado de absorver toda a demanda.
Sistema regulado cresce e já reúne mais de 100 mil usuários
Segundo o relatório, 101.861 pessoas estavam legalmente autorizadas a acessar cannabis regulamentada no final de 2024.
Entre elas:
74.583 consumidores compraram cannabis em farmácias
11.597 cultivavam em casa
15.681 participavam de 475 clubes de membros
Desde o início da venda em farmácias, em 2017, mais de 15 toneladas de cannabis foram distribuídas no país.
O modelo uruguaio se consolidou como uma das experiências internacionais mais observadas quando se discute regulação da cannabis, tema frequentemente acompanhado também por iniciativas de política pública e regulamentação no setor canábico.
Farmácias seguem como gargalo do sistema
O próprio relatório identifica as farmácias como um dos principais pontos de fragilidade do modelo regulado.
Problemas de abastecimento, escassez recorrente e uma oferta que durante anos não acompanhou as preferências dos consumidores são apontados como fatores que limitaram o crescimento do mercado legal.
Em outras palavras, o avanço regulatório ocorreu, mas nem sempre no mesmo ritmo da demanda existente.
Esse cenário ajuda a explicar por que parte dos consumidores continua recorrendo a canais não oficiais.
Mercado cinza ainda representa quase 30% do acesso
Uma das conclusões centrais da avaliação é a persistência do chamado mercado cinza.
Mesmo com a redução da participação do tráfico tradicional e da cannabis prensada, quase 30% das formas de acesso mais frequentes entre consumidores no último ano ocorreram fora do circuito regulamentado.
Segundo o documento, esse mercado intermediário é alimentado por:
plantações não registradas
trocas informais entre usuários
desvios de cannabis produzida em canais legais ou semilegais
O relatório destaca que esse percentual ainda é elevado para um país que construiu sua política de cannabis com base na rastreabilidade da produção e da distribuição.
Indicadores de saúde pública permanecem estáveis
Em relação aos impactos na saúde pública, os dados apresentados na avaliação são considerados menos preocupantes do que muitos críticos projetavam quando a lei foi aprovada, em 2013.
De acordo com o relatório, não foram identificados impactos negativos significativos atribuíveis à regulamentação da cannabis.
Além disso:
indicadores de uso problemático permanecem estáveis
não houve aumento acentuado em emergências toxicológicas relacionadas à cannabis
O acompanhamento desses indicadores é considerado essencial em debates sobre cannabis medicinal, uso adulto e políticas públicas, tema frequentemente discutido em estudos e análises do setor.
Onze anos depois, novos desafios para o modelo uruguaio
A avaliação indica que o debate no Uruguai deixou de se concentrar apenas na viabilidade da regulação.
Agora, o foco está em como aprimorar o sistema, ampliar a oferta legal e reduzir o espaço ocupado pelo mercado paralelo.
Segundo o relatório, o futuro do modelo uruguaio depende da capacidade de ajustar a política pública, equilibrando regulação, acesso e controle do mercado.
Fonte: Com informações originais publicadas no Portal Cañamo.

