Importação de cannabis bate recorde no Brasil e reforça maturidade do mercado, avalia Alex Lucena
Palestrante confirmado no CBCM 2026: Crescimento contínuo da demanda por produtos à base de cannabis reflete avanço médico, pressão dos pacientes e amadurecimento do debate regulatório no país
Publicada em 16/03/2026

Foto: Ilustrativa
O mercado brasileiro de cannabis medicinal voltou a registrar um marco histórico. Como mostrou reportagem recente do portal Sechat, a importação de produtos à base de cannabis bateu novo recorde em 2025, mantendo uma curva consistente de crescimento ao longo dos últimos anos.
Segundo dados analisados pelo setor, o avanço não representa um salto isolado, mas sim a consolidação de um processo estrutural que vem transformando o acesso à terapia no país.
Para entender o que está por trás desse crescimento, o Sechat ouviu o empreendedor em série e consultor pioneiro no setor da cannabis no Brasil, Alex Lucena, que acompanha o desenvolvimento desse mercado desde os primeiros avanços regulatórios.
A análise dele aponta para um fenômeno claro: o mercado brasileiro amadureceu.
Crescimento de uma década
A expansão da cannabis medicinal no Brasil não aconteceu de forma repentina. Pelo contrário, foi resultado de um processo gradual de construção social, científica e regulatória.

Em entrevista ao Sechat, Alex Lucena, confirmado como palestrante do módulo Business Cannabis da 5ª edição do Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal, explica que o recorde registrado em 2025 reflete uma trajetória que já vem sendo construída há pelo menos dez anos.
“A meu ver, esse crescimento recorde de 2025 não é fruto de um salto repentino, mas da consolidação de um processo que vem acontecendo de forma muito consistente há pelo menos uma década. O mercado brasileiro de cannabis medicinal vem crescendo de maneira sustentável, passo a passo, sem grandes picos artificiais.”
Segundo ele, essa expansão foi impulsionada por um esforço coletivo de diversos atores do ecossistema da cannabis medicinal.
“Isso tem muito a ver com um trabalho silencioso de evangelização que vem sendo feito por pacientes, médicos, pesquisadores, empreendedores como eu e ativistas que, dia após dia, ajudam a explicar o tema para a sociedade.”
Nesse contexto, a comunicação e o jornalismo especializado também tiveram papel relevante na construção de um debate mais qualificado.
“A mídia especializada, como o Sechat, e a grande mídia em geral também têm uma enorme contribuição para isso.”
Movimento social que pressionou o regulatório
Diferentemente de outros países, onde políticas públicas lideraram a legalização ou regulamentação da cannabis medicinal, no Brasil o processo teve origem na própria sociedade.
Segundo Lucena, a trajetória brasileira é marcada por uma mobilização de base.
“No Brasil, a história da cannabis medicinal é claramente um movimento que nasceu de baixo para cima da sociedade para o regulatório. Isso explica muito da solidez desse crescimento.”
Esse movimento começou com famílias de pacientes que buscavam tratamento para epilepsia refratária, doenças neurológicas e dor crônica. Com o passar dos anos, a pauta ganhou respaldo científico e começou a chegar aos consultórios médicos.
Hoje, o tema já faz parte da rotina de milhares de profissionais da saúde.
“Esse amadurecimento também se reflete no aumento do número de médicos prescritores e na maior naturalidade com que o tema passou a ser tratado dentro dos consultórios.”
A evolução do debate científico também ajudou a reduzir a resistência dentro da comunidade médica.
“Hoje já existe um volume significativo de evidências científicas, experiências clínicas e relatos de pacientes que ajudam a dar mais segurança para o médico.”
Para Lucena, em 2026 o desconhecimento sobre o tema já começa a se tornar exceção.
“Eu diria até que, em 2026, chega a ser um pouco embaraçoso um paciente trazer o tema da cannabis medicinal numa consulta e o médico não estar minimamente informado sobre o assunto.”
Demanda crescente pressiona o modelo de importação
Apesar do avanço do mercado, o acesso aos produtos ainda depende majoritariamente da importação.
O modelo atual foi estruturado a partir das normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que permitem que pacientes autorizados importem produtos à base de cannabis mediante prescrição médica.
Esse sistema abriu caminho para o crescimento da terapia no país, mas também expôs seus limites.
Com o aumento do número de pacientes, cresce também a pressão por soluções estruturais dentro do território nacional.
Para Alex Lucena, o próximo passo natural do mercado é a consolidação de uma política de produção local.
“Sem dúvida o Brasil precisa avançar para uma política mais estruturada, especialmente no que diz respeito à produção nacional.”

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Nos últimos anos, o debate sobre o cultivo regulado de cannabis começou a ganhar força no Brasil, envolvendo discussões no Congresso, no Judiciário e em órgãos regulatórios.
Para quem acompanha o setor desde os primeiros movimentos, o simples fato de o país discutir a possibilidade de plantar cannabis já representa uma mudança significativa.
“Estamos longe do cenário ideal ainda, mas, para alguém como eu que acompanha esse setor desde 2017, o simples fato de estarmos finalmente falando em plantar cannabis no Brasil, com respaldo regulatório, já é algo muito significativo.”
A regulamentação do cultivo poderia abrir caminho para o desenvolvimento de uma cadeia produtiva completa.
“Quando o país começa pela planta — leia, agro — abre-se a possibilidade de estruturar uma cadeia produtiva completa, da semente ao paciente.”
Lucena acredita que o Brasil tem capacidade técnica para ocupar espaço relevante no setor.
“O Brasil tem competência de sobra em todas as etapas dessa cadeia: pesquisa, agronegócio, indústria, tecnologia e saúde.”
Esse cenário pode atrair novos investimentos e acelerar o crescimento do mercado.
“Isso cria um ambiente muito promissor para que empreendedores comecem a surfar uma nova onda de investimentos sustentáveis no setor.”
O que esperar para o futuro da cannabis no Brasil
Se a curva atual continuar, o mercado brasileiro de cannabis medicinal tende a expandir de forma consistente nos próximos anos.
A combinação entre aumento de pacientes, maior adesão médica e evolução regulatória cria um ambiente favorável para a consolidação do setor.
Segundo Alex Lucena, a tendência é clara.
“A tendência é de crescimento contínuo da demanda por cannabis medicinal e, olhando alguns anos à frente, é difícil não imaginar que o país também avance para aplicações industriais do cânhamo e para um debate amplo e responsável sobre o uso adulto.”
Para ele, o importante agora é garantir que o desenvolvimento do setor ocorra com responsabilidade e visão de longo prazo.
“Vamos continuar trabalhando para isso.”
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