Cannabis medicinal avança na saúde animal e expõe urgência regulatória no Brasil

Com crescimento clínico e demanda crescente, especialistas apontam que país está pronto para consolidar a cannabis também na medicina veterinária

Publicada em 29/05/2026

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Avanço da cannabis medicinal na saúde animal pressiona regulação no Brasil

O Brasil vive um momento decisivo na evolução da cannabis medicinal — e a saúde animal entrou definitivamente nessa agenda. Após anos de proibição, o país avançou para um modelo regulado de acesso, mas ainda enfrenta lacunas importantes, especialmente no campo veterinário.

 

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Caroline Campagnone durante participação no CBCM 2026, destacando os avanços da endocanabinologia veterinária e o debate sobre a regulamentação da cannabis medicinal na saúde animal no Brasil. Foto: Sechat

“O Brasil saiu de um cenário de absoluta proibição para um modelo controlado de acesso medicinal”, afirma Caroline Campagnone, especialista em endocanabinologia veterinária.

A base dessa transformação começou com a RDC 327/2019, que permitiu a fabricação, importação e comercialização de produtos à base de cannabis. Em 2026, a atualização regulatória com a RDC 1.015 trouxe avanços relevantes, incluindo regras mais robustas de fabricação, controle sanitário, rastreabilidade e ampliação das possibilidades terapêuticas.

Entre os principais avanços estão a ampliação das formas farmacêuticas e vias de administração, a reorganização das exigências de prescrição e dispensação, além da abertura para cultivo medicinal controlado com teor de THC de até 0,3% para pesquisa e produção farmacêutica.

Atualmente, médicos e dentistas podem prescrever cannabis para humanos, enquanto médicos veterinários também atuam dentro da autonomia profissional. O acesso ocorre por meio de farmácias autorizadas, importação excepcional e decisões judiciais. No caso da saúde animal, os responsáveis recorrem principalmente a associações e farmácias.

Outro avanço relevante é a possibilidade de registro de produtos de cannabis no Ministério da Agricultura (MAPA), desde que atendidos os requisitos técnicos.

 

O papel do CFMV e a evolução da medicina veterinária

 

O Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) tem desempenhado papel estratégico na construção desse cenário. Segundo Campagnone, houve avanços importantes nos últimos anos, como o reconhecimento científico do sistema endocanabinoide na medicina veterinária, a atuação de grupos técnicos e o diálogo institucional com órgãos como Anvisa e MAPA.

A RDC 936/2024 também trouxe maior segurança ao permitir o uso veterinário da cannabis, ampliando a confiança dos profissionais.

Na prática, a medicina veterinária brasileira já incorporou a terapia canabinoide em diversas áreas. “Hoje já existem prescrições clínicas em dor crônica, epilepsia, oncologia, dermatologia, geriatria e cuidados paliativos”, destaca.

Além disso, o setor já conta com pesquisas em andamento, cursos de especialização, pós-graduações e a construção de protocolos clínicos e farmacológicos.

 

Desafios: regulação, acesso e padronização

 

Apesar do avanço, o setor ainda enfrenta entraves relevantes. Entre as principais demandas estão a necessidade de desmistificação do uso veterinário — especialmente em relação ao THC —, a criação de produtos veterinários regulados pelo MAPA e o desenvolvimento de formulações com diversidade de fitocanabinoides além do CBD.

Outro ponto crítico é a segurança jurídica para associações. “Mesmo com avanços regulatórios, muitas ainda estão no limbo aguardando chamamento público”, explica.

O acesso também é um desafio. A expectativa do setor é tornar os tratamentos mais democráticos e financeiramente viáveis para os responsáveis.

Paralelamente, cresce a preocupação com a qualidade dos produtos, a rastreabilidade, a capacitação profissional e o combate ao uso indiscriminado. “É fundamental evitar a banalização terapêutica e garantir critérios científicos no uso”, alerta.

 

O que ainda precisa avançar

 

Apesar do amadurecimento, o Brasil ainda possui lacunas regulatórias importantes. Entre os pontos que demandam evolução estão o registro específico de produtos veterinários com fitocanabinoides, a ampliação da pesquisa clínica e a inclusão da cannabis em protocolos terapêuticos oficiais.

Também entram nessa lista a regulação das atividades associativas veterinárias, o uso em animais de produção e rebanhos, além da regulamentação do uso nutricional da planta e seus subprodutos.

 

O futuro da cannabis na saúde animal

 

As perspectivas para os próximos anos são positivas. O setor projeta crescimento do cultivo nacional controlado, redução de custos, expansão das pesquisas e maior integração entre Anvisa, MAPA e conselhos profissionais.

A tendência é de crescimento acelerado, impulsionado pelo tamanho do mercado pet brasileiro e pela demanda por terapias integrativas e qualidade de vida animal.

“O Brasil demonstra sinais claros de maturidade técnica, científica e regulatória para avançar”, afirma Campagnone.

Nesse cenário, a discussão evolui. Já não se trata mais de validar a cannabis como ferramenta terapêutica, mas de estruturar sua regulamentação. “O grande desafio agora é regulamentar de forma segura, ética, acessível e baseada em ciência”, pontua.

Para a especialista, o avanço na saúde animal é inevitável. “Na medicina veterinária, o avanço regulatório se torna cada vez mais inevitável diante da realidade clínica observada diariamente.”

A expectativa é que o Brasil migre de um modelo ainda excepcional para uma estrutura consolidada, com produção nacional, maior segurança jurídica e integração definitiva da cannabis aos sistemas de saúde humano e veterinário.