Distúrbios Psiquiátricos: Geração Prozac x Geração Ritalina x Geração Cannabis

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(Imagem: Arquivo Sechat)

Por Adriana Russowsky

É simplesmente fascinante estudar a fisiologia humana e perceber como tantas estruturas químicas vindas da natureza se conectam e proporcionam efeitos que tratam (e envenenam) nosso corpo, em uma fórmula perfeita.

Assim como os deliciosos aromas que nos atraem, nos acalmam, a exemplo da lavanda e capim cidreira, outros nos energizam, como a hortelã e o alecrim. Os amargos e fétidos podem nos repelir, indicando talvez compostos tóxicos para o metabolismo individual (todos temos peculiaridades em nosso sistema que nos constituem como organismo). As flores que atraem nos deixam mais jovens e belos: Rosas, jasmim, flor de cerejeira. O que falar do lúpulo? Mesmo os abstêmios, como eu, se deliciam com o atrativo aroma das flores. E o aroma de uma suculenta fruta fresca? De fato, resplandece seu sabor e nutrição.

Percebendo a maneira como a nutrição já comprovou que quanto mais próximo estivermos da natureza em termos de alimentação, melhor, e quanto mais industrializado e repleto de sintéticos, pior, vejo que a minha paixão por estes sistemas e o olhar para os crescentes estudos sobre fitoterapia e nutrição, me direcionaram para uma área de especialidade em que vi esperança para uma medicina mais curativa, e menos paliativa, resolvendo, e não colocando poeira para debaixo do tapete. Pois, seguindo esta lógica, vos pergunto: “seria diferente quando nos submetemos a medicamentos químicos?”. A cannabis vem sendo uma solução quando se fala em terapias funcionais e que atingem vários alvos em uma estruturação de protocolo de tratamento.

Como tudo é equilíbrio, sabemos que as mudanças não ocorrem de um dia para o outro. As descobertas e as lutas, são relativamente recentes, afinal. A equipe de Mechoulam e Yehiel, de fato, trouxe a estrutura das moléculas canabinoides em estudos a partir da década de 40. Mas tenho apreço especial pelo evento de 1988, tão recente data, onde a doutora Allyn Howllet trouxe à tona o sistema fisiológico com maior número de receptores em nosso corpo, o Sistema Endocanabinoide. Descobriu os receptores CB1, existentes no sistema nervoso central, e sua equipe, posteriormente, o CB2. Então, o que se observou na planta, se reproduziria de uma maneira muito similar em humanos e mamíferos, mostrando ainda mais conexão do ser humano e da natureza. 

As substâncias psicoativas naturais vêm e seguem com uma nova ótica por enorme parte da comunidade científica, exatamente porque nunca foi tão falado sobre as medicinas naturais no tratamento de distúrbios psiquiátricos dos mais variados. Não somente com relação a benefícios, quando comparados aos alopáticos, mas com a revisão de seus efeitos adversos, cada vez mais próximos do ajuste dose/efeito desejado. Depressão, Déficit de Atenção, Adição, Estresse, Fibromialgia, Problemas com libido, são apenas alguns. Entre estas substâncias, os canabinoides com certeza pespontam e prevalecem em um tema atual que envolve mudança de atribuições históricas datadas de mais de 80 anos.

Transtornos e doenças da mente geralmente acabam exigindo a tomada de outros medicamentos psiquiátricos, alopáticos ou naturais, diferentes do objetivo principal. Por exemplo, uma pessoa depressiva, entrando em terapia com um antidepressivo comum, um inibidor da receptação da serotonina como a fluoxetina ou sertralina. Nos primeiros dias, vai ter um boom serotoninérgico que pode gerar ansiedade. Até se acostumar com o medicamento, já se viciou na sensação provavelmente. E quando deveria ser só uma muleta, um tratamento de 3 meses, vira cotidiano para muito e muito tempo. Só que daí, a dopamina e a libido diminuirão. A irritação aumenta. As alergias aparecem, sem causa aparente. E cada caso é um caso. 

É o que dramatiza o documentário “Geração Prozac”, de 2001, sobre este boom do ramo farmacêutico. A fluoxetina, princípio ativo do medicamento para depressão, é tão comum para a sociedade em suas mais variadas classes sociais, mas é uma bola de neve quando se fala em efeitos adversos, analisando qualidade de vida de uma maneira geral. E com minha experiência clínica, venho acompanhando pacientes que obtiveram uma melhora enorme nos quadros de ansiedade e depressão, substituindo antidepressivos pelo uso da planta, reduzindo a polifarmácia e remédios sintéticos. Da mesma maneira, os quadros leves se resolvem muitas vezes e a terapia com cannabis medicinal nem precisa ser dada sequência. Outras plantas e óleos essenciais são inclusos, e beneficiam a maneira como estas pessoas vivem o seu dia a dia. 

Vale também citar o documentário “Take your Pills”, que nos mostrava em 2018 a geração que sobrevive e trabalha incessantemente a base de Adderol, similar a ritalina e ao Venvanse. O que acontece é que hoje a utilização de canabinoides e terapias naturais como a com terpenos dos óleos essenciais, além de outros fitoterápicos, conseguiu reduzir o consumo destes sintéticos (1), que trazem efeitos colaterais notáveis para pacientes com déficit de atenção e incentivam consumo contínuo.

Ao invés de aumentar ou diminuir catecolaminas (os combustíveis do funcionamento normal de nosso cérebro), trazendo até desarmonia como fazem as terapias sem cuidado e prolongadas com medicamentos, a ativação correta do SEC traz uma relação harmoniosa e estabelece equilíbrio entre estas substâncias (2). Quando pensamos em déficit de serotonina e dopamina, aumento de catecolaminas excitatórias e sua diminuição brusca, parece de fato ser interessante utilizar uma estratégia que regule o corpo e a mente. Ao invés de uma que mantenha o sistema dependente e o desregule de certa forma, precisando retirar a qualidade de vida e objetividade do tratamento do paciente: em prol da economia da maior indústria do mundo e uma facilidade de prescrição e desconexão rápida de uma pessoa a que você está prestando serviço, onde ela irá retornar com uma nova demanda e uma nova fonte de renda ao seu orientador. Ser um profissional da área da saúde exige ampla gama de responsabilidades, conforme jurado quando pegamos o diploma. Não digo que os alopáticos não foram e que não são importantes, mas que devem ser utilizados com cautela, inteligência e mais amor. 

As drogas que nos deixam mais produtivos, como as anfetaminas e o café, tabaco, coca-cola, tem incentivo histórico. As que nos deixam mais relaxados, calmos e introspectivos, como a flor da papoula (ópio), a cannabis, os cogumelos, foram retirados de cena o mais rápido possível neste filme que não é bom nem ruim, mas representa o capitalismo. É só observar a história do proibicionismo e juntar os fatos: correlacionar tão magníficas jóias da natureza com indivíduos não desejados nas sociedades, estudos tendenciosos, mudanças abruptas de escopos de projetos científicos…assim se construiu um tipo de economia.

Se vamos trazer à tona o termo drogas para o presente artigo, vale perguntar o que afinal o define. Pharmakon era um termo utilizado por Paracelsus, que basicamente reflete aquela máxima do mesmo autor, “o que define droga e medicamento é a dose”. As próprias abelhas, que curtem substâncias que aumentam sua produtividade, apreciam determinadas flores que contêm pequenas quantidades de cafeína, e não se interessam por outras que a possuem em sua maior quantidade, exatamente pelo seu gosto amargo. Mas não fugindo da temática inicial do artigo, me parece ser mais confortável para o corpo humano absorver e ser tratado com substâncias naturais feitas para agir nele, do que com uma recriação parecida feita em laboratório. E sabemos hoje como a percepção e responsabilidade individual no processo de alimentação e cura é importante.

Ao observar a maneira como a indústria farmacêutica participou das decisões de proibições da planta (e não medicamento) Cannabis, tudo isto ainda não havia sido levado em conta, apesar dos tratados de Medicina Chinesa e Indiana Ayuervedica já apresentarem inúmeros relatos, em formas que não divulgam com tanta clareza para o ocidente, e entre uma grande sequência de estudos na Europa com a planta e diversas condições clínicas. Sendo assim, o mercado, a ciência, a sociedade e os órgãos regulamentadores legislativos foram se adequando da maneira que puderam perante o tema. E assim seguimos. Com todos os fatos relatados, ficamos na expectativa dos órgãos governamentais decidirem a melhor maneira para normatizar os setores que envolvem a temática da planta, para em breve os cenários farmacêutico, médico e empresarial poderem fluir de acordo com as novas descobertas e observações da comunidade científica, como já se observa em outros países. Da minha parte, estudos e aplicações terapêuticas com cannabis e outros insumos naturais permitidos e ainda não regulamentados, serão privilegiadas. 

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e de responsabilidade de seus autores.

Sobre a autora:

Adriana Russowsky é farmacêutica, pós-graduada em administração de empresas e mestre em Ciências da Reabilitação. Atuou como docente em programa de pós-graduação e atua no mercado canabico desde 2018. Embasou sua carreira através da Fitoterapia e criação de protocolos de suplementação na medicina clínica preventiva e canabica. No momento, atua prestando consultoria em serviços no setor, além de desenvolvimento de produtos, suplementos, medicamentos e cosméticos, baseados na naturalidade e fitoterapia. Também escreve conteúdo científico para marketing na área da saúde e na área clínica e realiza atendimentos de Assistência Farmacêutica e Estruturação de Protocolos Terapêuticos.

Referências:

  1. Hergenrather, J. Y. et al. Cannabinoid and terpenoid doses are associated with ADHD status os Medical Cannabis Patients. Rambam Maimonides Med J, 2020.
  2. Marco, E. M.; Viveros, M.P. Implicación funcional del sistema canabinoide endógeno en la homeostasis emocional. Rev Neurol, 48(1):20-26, 2009.

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