Regular bem significa fazer o país avançar

Regular bem significa fazer o país avançar

Regular um setor emergente não é apenas um ato administrativo. É uma decisão econômica que define quem vai capturar valor e quem ficará assistindo o valor sair do país

Publicado em 22/02/2026

O Brasil está diante de um desses momentos. A decisão da Anvisa de avançar com instrumentos regulatórios experimentais no campo da cannabis medicinal sinaliza que o país começa a compreender algo essencial: inovação não pode ser tratada como exceção permanente. Quando a regulação permanece defensiva por tempo demais, o capital migra, a tecnologia se instala em outras jurisdições e a produção acontece onde o risco regulatório é previsível.

O debate, portanto, não é ideológico. É estrutural. E estamos agora em um ponto de inflexão raro na história econômica do setor: ou o país transforma esse movimento regulatório em política de desenvolvimento, ou continuará exportando potencial e importando valor agregado.

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André F. Steiner, empresário e especialista em inovação genética aplicada ao cânhamo industrial.
Crédito: Dalila Magarian

Grande parte das dificuldades regulatórias associadas ao cânhamo industrial decorre da presença das moléculas psicotrópicas e psicoativas sujeitas a controle especial, como o THC e o CBD, compostos químicos que exigem regimes rigorosos de rastreabilidade sanitária. Nesses casos, o rigor não apenas é justificável — é indispensável. O problema surge quando essa mesma lógica é aplicada indistintamente a contextos produtivos que não carregam esse risco na origem.

É nesse ponto que o cânhamo industrial geneticamente editado precisa entrar no centro do debate.

Quando falamos de cultivares de cânhamo geneticamente editados com perfil canabinoide não psicotrópico ou psicoativo e finalidades industriais claras, o objeto regulatório se altera. Não se trata de flexibilizar regras, contornar normas ou criar atalhos institucionais. Trata-se de reconhecer que perfis de risco distintos exigem enquadramentos distintos. Regulação eficiente não é a que controla tudo da mesma forma; é a que diferencia com precisão.

Mais do que uma discussão sanitária, estamos diante de uma agenda econômica concreta e altamente relevante.

O cânhamo industrial pode integrar cadeias produtivas estratégicas: construção civil, biomateriais, têxteis técnicos, biocompósitos, bioenergia, papel, alimentação animal, suplementação e cosmética, entre outras. Trata-se de uma cultura com múltiplas rotas tecnológicas e alto potencial de agregação de valor por hectare, especialmente quando inserida em modelos agroindustriais verticalizados.

Há ainda um ângulo pouco explorado no Brasil, mas altamente estratégico do ponto de vista econômico: a integração com a pecuária. Em sistemas produtivos bem estruturados, o cânhamo pode operar dentro de uma lógica de economia circular, com aproveitamento de biomassa, fibras e coprodutos para uso como substratos, cama animal, insumos industriais ou componentes de cadeia integrada. Isso reduz custos operacionais, aumenta eficiência por área e cria novas linhas de receita dentro da própria propriedade rural. Não se trata apenas de plantar uma nova cultura, mas de redesenhar o modelo produtivo para capturar valor em mais de uma frente. Aliás, em várias frentes, todas altamente rentáveis.

Países que compreenderam essa dinâmica não trataram o tema exclusivamente como política sanitária. Enquadraram-no como política agrícola e industrial combinadas, com regras claras, métricas objetivas e previsibilidade regulatória. É isso que atrai capital de longo prazo.

No Brasil, o desafio não está em escolher entre cautela e progresso. Está em aprender a diferenciar contextos. Instrumentos regulatórios transitórios cumprem papel importante em fases de incerteza. Mas nenhum país constrói liderança produtiva sustentada com regimes de exceção permanentes.

O avanço estrutural ocorre quando soluções técnicas permitem que a regulação deixe de ser defensiva e passe a ser precisa. Reduzir risco na origem — por critérios objetivos, rastreabilidade e finalidade produtiva clara — é a forma mais eficiente de proteger a saúde pública e, simultaneamente, destravar a economia real.

O cânhamo industrial geneticamente editado oferece ao Brasil a oportunidade de reposicionar sua agricultura, fortalecer sua base industrial e ingressar de maneira competitiva na economia dos biomateriais. Para isso, será necessário abandonar generalizações e reconhecer um princípio simples: nem toda Cannabis sativa é igual e já existe solução com o novo padrão de cânhamo geneticamente editado — e regular bem é, sobretudo, regular com precisão.

 

A opinião do autor não reflete, necessariamente, o posicionamento da Sechat. 

 

Sobre o autor convidado Sechat: 
André F. Steiner é empresário, com atuação nas áreas de inovação, genética e desenvolvimento de ecossistemas produtivos ligados ao cânhamo industrial. Detém a licença exclusiva da genética Badger G no Brasil e no mundo.

 Biografia do Autor Especial para a Sechat
Especial para a Sechat

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