
O Despertar Global da Cannabis: Entre a Maturidade Regulatória e o Imperativo do Business
Regulação madura, capital institucional e foco no paciente redesenham o futuro do mercado global de cannabis medicinal
Publicado em 03/02/2026O mercado global de cannabis medicinal atravessa um momento de maior transformação estrutural. O que antes era uma discussão pautada pelo ativismo e pela incerteza jurídica, hoje é impulsionado por dados clínicos robustos, pressões macroeconômicas e uma reestruturação geopolítica sem precedentes. Para o tomador de decisão do setor, o cenário exige uma leitura estratégica: a regulação finalmente passou a acompanhar a demanda reprimida, mas o sucesso do negócio agora depende da capacidade de colocar o paciente no centro da cadeia de valor.
O Novo Marco Brasileiro: A Evolução da RDC 327 e os Números do Setor
No Brasil, a recente revisão da RDC 327 pela Anvisa (anunciada em janeiro de 2026) não é apenas um ajuste burocrático; é um sinal de amadurecimento institucional. Ao simplificar os procedimentos de renovação e permitir que farmácias de manipulação entrem no jogo, a agência confere a previsibilidade necessária ao planejamento de longo prazo.
Do ponto de vista de business, os números são impressionantes. Segundo o Anuário da Cannabis Medicinal 2025 da Kaya Mind, o Brasil encerrou o último ano com cerca de 873 mil pacientes em tratamento, um salto significativo em relação aos 672 mil registrados em 2024. O faturamento do setor no país já flerta com a marca histórica de R$ 1 bilhão, consolidando o Brasil como o principal hub da América Latina. Projeções da Grand View Research indicam que, até 2030, o mercado brasileiro deve manter uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 26%, atingindo cifras que justificam os investimentos pesados em infraestrutura e logística observados nos últimos meses.
A Guinada das Potências: EUA e o Capital Institucional
Enquanto o Brasil refina suas regras, o tabuleiro internacional move-se a uma velocidade acelerada. Nos Estados Unidos, a reclassificação da cannabis para a “Schedule III” e a iminente ordem executiva para facilitar a pesquisa científica mudam as regras do jogo. Para o mercado, isso representa a queda da barreira fiscal (o temido artigo 280E do código fiscal americano), permitindo que as empresas finalmente deduzam despesas operacionais e melhorando drasticamente o fluxo de caixa.
Esta mudança abre as comportas para o capital institucional. Com a cannabis saindo da mesma categoria que a heroína para se tornar uma substância reconhecida como medicinal sob supervisão federal, o mercado americano projeta atingir US$ 47 bilhões em 2026. Para o investidor brasileiro, isso sinaliza uma era de validação científica que facilitará a aceitação médica local e reduzirá os custos de educação do mercado.
Alemanha: O Modelo Europeu de Acesso
Na Europa, a Alemanha consolidou-se como o motor do continente após a implementação completa da lei CanG. Ao retirar a cannabis da lista de narcóticos, o governo alemão removeu o estigma burocrático que travava a prescrição. Em 2025, o país registrou recordes de importação, ajustando seu teto anual para 192,5 toneladas para evitar o desabastecimento. A Alemanha dita a tendência: o mercado não é apenas sobre o produto, mas sobre a robustez da cadeia de suprimentos e a eficiência regulatória.

O Lucro no Propósito: O Paciente como Ativo Central
Apesar das projeções bilionárias, há um risco estratégico latente: o distanciamento entre a planilha financeira e a necessidade clínica. No setor de cannabis, o valor de uma companhia não será medido apenas pelo seu market cap, mas também pela sua capacidade de gerar resultados terapêuticos reais.
Precisamos devolver aos pacientes todos os benefícios que esta planta pode oferecer. Isso não é apenas uma bandeira ética; é uma estratégia de negócios inteligente. A sustentabilidade financeira do setor depende da recorrência, e a recorrência depende da eficácia e do custo-benefício. O investidor que ignora as barreiras de acesso (preço e burocracia) está investindo em um teto de vidro.
Conclusão
Estamos encerrando a fase da “corrida do ouro” especulativa e entrando na era da consolidação profissional. Com a Anvisa liberando o cultivo para pesquisa e facilitando a dispensação, os EUA validando a ciência e a Alemanha democratizando o acesso, o caminho está pavimentado.
O desafio agora é operacional: construir um ecossistema em que o paciente receba o que há de melhor na planta, com a eficiência que só um mercado livre e regulado pode proporcionar.
A opinião do autor não corresponde, necessariamente, à opinião do portal Sechat.

Tiago Zamponi é advogado com especialização em desenvolvimento de negócios, vendas e planejamento estratégico. Atualmente reside no Canadá onde atua como General Manager LATAM da Conversance uma empresa focada em criar um Mercados Blockchain, fornecimento, aquisição, gestão de qualidade e apoio logístico para o movimento seguro de cannabis medicinal entre partes licenciadas em todo o mundo.
