
Idosos, Saúde Bucal e Cannabis Medicinal: Um Novo Horizonte Terapêutico
Coluna assinada por Cynthia De Carlo, cirurgiã-dentista, que analisa os impactos da cannabis medicinal na saúde bucal de idosos e os novos horizontes terapêuticos na odontogeriatria
Publicado em 11/01/2026A saúde bucal dos idosos é frequentemente comprometida por fatores como desgaste dentário, doenças gengivais e dor crônica. Nesse contexto, a cannabis medicinal surge como uma alternativa terapêutica promissora, auxiliando no controle da dor, na redução da inflamação e na melhora da qualidade de vida.
Condições Bucais na Terceira Idade
O envelhecimento traz mudanças significativas na cavidade oral, que impactam diretamente a saúde e o bem-estar dos idosos:
- - Perda dentária: comum em decorrência de cáries acumuladas e doenças periodontais.
- - Xerostomia (boca seca): resultado do uso contínuo de medicamentos ou de alterações fisiológicas, aumentando o risco de cáries e infecções.
- - oenças gengivais: inflamações crônicas que podem evoluir para quadros de periodontite.
- - Dor orofacial: associada a próteses mal adaptadas, desgaste articular ou neuralgias.
- - Impacto psicossocial: dificuldades na mastigação e na fala comprometem a autoestima e reduzem a interação social.
Essas condições exigem acompanhamento odontológico contínuo e, muitas vezes, o uso de terapias complementares para alívio dos sintomas.
Cannabis Medicinal e Seus Benefícios
Estudos recentes indicam que a cannabis medicinal pode ser uma aliada importante na geriatria. Seus compostos bioativos — como o tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD) — interagem com o sistema endocanabinoide humano e apresentam potencial aplicação também na saúde bucal:
- - Controle da dor crônica: idosos relatam redução significativa da intensidade da dor com o uso de óleos ou flores de cannabis.
- - Efeito anti-inflamatório: os canabinoides auxiliam na redução de inflamações gengivais e articulares.
- - Neuroproteção: estudos sugerem benefícios em condições neurodegenerativas comuns na população idosa.
- - Melhora do sono e do humor: condições bucais dolorosas afetam o descanso; a cannabis pode auxiliar na regulação do sono e no bem-estar geral.
- - Qualidade de vida: maior disposição para alimentação, fala e convívio social.
Um estudo publicado na revista Drugs & Aging apontou que idosos acima de 65 anos apresentaram melhora no bem-estar geral e na saúde física após três meses de tratamento com cannabis medicinal.
Comparação: Tratamentos Convencionais vs. Cannabis Medicinal
Aspecto
- - Tratamentos Convencionais (analgésicos e anti-inflamatórios)
- - Cannabis Medicinal
Controle da dor
- - Moderado, com risco de efeitos colaterais gastrointestinais
- - Eficaz, com menor impacto gástrico
Inflamação gengival
- - Anti-inflamatórios tradicionais
- - Canabinoides com ação anti-inflamatória
Qualidade do sono
- -Pouco impacto
- - Melhora significativa relatada
Bem-estar psicológico
- - Limitado
- - Impacto positivo no humor e na vitalidade
Acessibilidade
- - Ampla, porém com efeitos adversos
- - Em expansão, inclusive no SUS
Integração da Cannabis no Cuidado Odontogeriátrico
A incorporação da cannabis medicinal na odontogeriatria pode oferecer vantagens relevantes, como:
- -Redução da dependência de opioides e anti-inflamatórios tradicionais.
- - Melhora da adesão ao tratamento odontológico, já que o controle da dor facilita procedimentos clínicos.
- - Potencial impacto positivo na saúde mental e na vida social dos pacientes idosos.
Cuidados Fundamentais
Apesar dos benefícios, alguns pontos exigem atenção:
- - Necessidade de protocolos clínicos específicos para uso em odontogeriatria.
- - Informação clara ao paciente e familiares sobre possíveis efeitos adversos, como boca seca, tontura e interações medicamentosas.
- - Barreiras regulatórias e acesso desigual ao tratamento, apesar dos avanços recentes no SUS.
Conclusão
A saúde bucal dos idosos demanda atenção especial, considerando seu impacto direto na qualidade de vida. A cannabis medicinal surge como um recurso terapêutico promissor para o manejo da dor, da inflamação e do bem-estar geral. No entanto, sua aplicação deve ser baseada em evidências científicas, protocolos clínicos bem definidos e acompanhamento multiprofissional. O futuro da odontogeriatria pode se beneficiar significativamente da integração responsável dessa terapia.
Referências
- Abuhasira, R. et al. Epidemiological characteristics, safety and efficacy of medical cannabis in the elderly. European Journal of Internal Medicine, 2018.
- Häuser, W. et al. Cannabis in Pain Management and Palliative Care. Drugs & Aging, 2019.
- Prefeitura de São Paulo amplia oferta de canabidiol no SUS. G1, 2025.

É cirurgiã-dentista, formada há 31 anos pela UNITAU, pós-graduada em Periodontia, Implante e Pediatria. É dentista do CECMedic (Centro de Excelência Canabinoide) e membro da SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis) e professora da Sechat Academy.
