Um pé em cada mundo

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(Créditos da imagem: Sechar/Arquivo)

Coluna de Marco Algorta

A cannabis é uma planta que foi usada por milênios na medicina. A época desse parêntesis em que esteve proibida (e que já termina), coincide com o momento de expansão da indústria farmacêutica e da compreensão da medicina de um ponto de vista exclusivamente positivista: éramos um corpo com moléculas, e essas moléculas tinham equilíbrio químico, padronizado, que quando desequilibrado só podia ser restaurado com intervenções químicas.

Tudo isso está mudando.

Não é só o fim do paradigma proibicionista e da absurda lista de substâncias controladas dos desvalorizados escritórios da OMS, é também o recomeço de uma medicina integral, que contempla aspectos emocionais, sociais e da integração das práticas médicas com a natureza. Além disso, a transformação da medicina química, em uma medicina biológica, onde quem cura é o corpo, e não o remédio.

São muitas transformações, e para poder navegar nesse mar de novos paradigmas e ressignificações de conceitos, devemos, antes de tudo, não perder o equilíbrio. Não devemos cair em discussões que nos distraem do principal foco: as pessoas.

Às vezes, a agenda do ambiente canábico perde tempo em falsas dicotomias: CBD ou THC, empresas ou associações, novos empreendedores ou ativistas sociais e vítimas, hoje presas, de um sistema judicial injusto, tecnologias inovadoras ou processos old school. Para chegar a um modelo que entenda o valor medicinal da conjunção dos canabinoides, além de terpenos e outros compostos da planta, para que associações e empresas trabalhem para gerar acesso real aos produtos de qualidade, para que as lutas sociais de tantos anos sejam reconhecidas, para que mães, irmãos e filhos não sejam mais presos por plantar, para que os empreendedores tenham um ecossistema pronto para desenvolver o potencial de seus projetos, para que a partir de novas tecnologias e com apoio do conhecimento desenvolvido no underground da cannabis encontremos soluções terapêuticas aos pacientes, para que essa indústria não seja somente sustentável, mas que possa aplicar todo o seu potencial de reparação do meio ambiente, deveremos dar o próximo passo.

Talvez, o começo do processo de liberação das pessoas presas por plantar seja, por exemplo, o registro da semente do cânhamo como alimento. O caminho é longo. E qualquer iniciativa ou projeto de lei, por mais imperfeita que seja, nunca é uma oportunidade perdida, mas sim uma porta que se abre.

A própria história do que eu gosto chamar de “relegalização” da cannabis mostra isso. No Uruguai, oito anos depois de ser o primeiro país do mundo em ter uma lei federal regulando a cannabis, os pacientes continuam sem poder acessar produtos com THC. Até existe uma lei específica que foi aprovada há dois anos por unanimidade em ambas câmaras, autorizando o uso do THC em medicina, mas as autoridades continuam sem regulamentar. Temos uma lei que não podemos aplicar. Claro que quando o sistema político teve que mudar uma lei para que palmeirenses e flamenguistas pudessem beber cerveja no dia da final da Libertadores, que coincide como uma proibição eleitoral nessa mesma noite, bem gelada de preferência, em 10 dias estava resolvido.

O caminho é longo. Como diz o título da coluna da Patrícia Villela no Sechat, “Muito – e nada – mudou em relação à cannabis no Brasil”. Concordo.

Devemos dar o próximo passo. E isso só vai acontecer quando estivermos juntos.

Marco Algorta mora no Uruguai e está na indústria da cannabis desde o começo. Ele foi um dos promotores da Câmara das Empresas de Cannabis Medicinal, sendo eleito o primeiro presidente. Marco deu palestras nos Estados Unidos, Canadá, México, Argentina, Uruguai e Brasil, é pai de cinco filhos e magister em narrativa e redação criativa.

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e não correspondem, necessariamente, à posição do Sechat.

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