Dr Pedro Pierro: a Ciência versus ignorância | Opinião

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Dr Antônio Pedro Pierrro Neto

Estava lendo a matéria do ministro da Cidadania Osmar Terra sobre o canabidiol sintético e, confesso, estou cada dia mais preocupado. Vou explicar o porquê: na declaração ele deu ênfase que não precisamos cultivar cannabis porque temos o canabidiol sintético e justificou a “posição do governo” com argumentos, no mínimo de metodologia pouco científica para um médico, na minha opinião.

Ele ainda compara a regulamentação do uso medicinal da cannabis no Brasil com a política antidrogas da China, Estados Unidos e Inglaterra. Primeiro que não estamos tratando de liberação de drogas e sim da regulamentação e acesso a uma medicação que hoje, pelas regras atuais, tem um custo mensal médio superior a R$ 1 mil. Depois, vale ressaltar algumas diferenças: a China é uma república socialista (dirigida por um partido comunista). Já os Estados Unidos têm uma forma diferente de regulamentação, onde os estados têm autonomia para essa liberação. E sabe qual é o resultado disso? Dos 50 estados, apenas três proíbem a cannabis para qualquer uso, 11 permitem o uso recreativo e medicinal, 33 aprovam o uso medicinal.

E na Inglaterra já existe uma regulamentação para uso medicinal, com regras rígidas, mas claras, onde inclusive é o berço de uma das maiores empresas farmacêuticas com produtos à base de cannabis no mundo, a GW Pharmaceuticals, que por meio do Laboratório Ipsen do Brasil comercializa o Mevatil em território nacional por algo em torno de R$ 1 mil por 10mL do produto, inacessível para a maioria das famílias brasileiras.

Concordo com o ministro que o assunto sobre dependência química é muito sério e falar em cura para alguns casos é difícil. Porém, o que estamos tratando, e reforço novamente, é uma forma de acesso a uma medicação e não como curar dependentes químicos. Falar que o aumento de homicídios no Uruguai está relacionado a liberação do uso de cannabis, é ignorar todos os outros fatores sociais e econômicos que contribuem para esse aumento.

Após o susto inicial sobre essa declaração, pensei em uma forma de explicar ao ministro que, no momento, já existe uma demanda, com benefícios descritos sobre diversos pacientes em uso dessa medicação e os riscos de perder esses benefícios com a interrupção do tratamento. Em 2015, foram 800 pedidos de liberação enviados para a Anvisa, em 2018 foram 3.300 solicitações e até maio deste ano cerca de 2.500, ou seja, mais de 9 mil solicitações.

Sr. ministro, o que faremos com esses pacientes? Sem contar uma infinidade de pacientes que buscam esse acesso onde o estado não tem controle, os óleos artesanais sem procedência e vendidos no mercado informal.

Mas antes de concluir esse texto, recebo outra declaração do ministro, essa por sua vez, nem um pouco republicana. Anteontem, ele afirmou que a Anvisa pode ser fechada caso a agência regulamente o plantio de cannabis (agora entendo a comparação com a China).

No último 11 de junho estive em Brasília na reunião pública da diretoria colegiada da Anvisa e fiquei espantando como o assunto que estava sendo tratado, parecia que discutíamos ali enriquecimento de urânio ou algo ainda mais nocivo a saúde pública. Achei um absurdo e fiquei bastante decepcionado com a proposta de regulamentação. Contudo, depois de ler as declarações do Ministro, revi meus conceitos e opiniões.

Osmar Terra, médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, ingressou no ano letivo de 1968 (Cinco anos antes, em 1963, o químico israelense Prof Dr Raphael Mechoulam, da Universidade Hebraíca de Jerusalém, isolava o canabidiol e oferecia ao mundo uma “nova” oportunidade de tratamento para muitas enfermidades). Osmar se forma em 1974, faz especialização em saúde perinatal, educação e desenvolvimento do bebê pela UnB (Universidade de Brasília) em 2001. Sua contribuição à política nacional é extensa, porém, eu procurei muito e encontrei muito pouco sobre sua contribuição e experiência médica para discutir com tanta paixão e preconceito sobre o assunto.

Por gentileza, ministro, em nome das pessoas que precisam dessa medicação, vamos ser mais profissionais e menos extremistas. Lembrando de uma frase que o doutor deve ter visto em sua graduação, de Hipócrates, conhecido como o pai da medicina:

“Há, verdadeiramente, duas coisas diferentes: saber e crer que se sabe. A ciência consiste em saber, em crer que se sabe está a ignorância”.

PS: Estou a sua disposição, como médico a debater o assunto.

Pedro Antônio Pierro Neto

Formado em Medicina e Residência em Neurocirurgia Funcional, se dedicou ao segmento de dor e ao método canibidiol cujo qual hoje é um dos primeiros médicos a prescrever no Brasil. Sua formação expandiu suas especializações nas terapias cirúrgicas para dor, tratamento de movimentos e cirurgias psiquiátricas. Se formou em 2000 e hoje a abordagem é centrada no método cannabis medicinal. Dr. Pedro Pierro é Membro da Sociedade Neurocirurgia, Sociedade Brasileira para estudo da Dor (SBED) e Inter-Americana de Cirurgia de Coluna Minimamente Invasiva.

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