Cannabis e sustentabilidade

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Formada em design de moda no Brasil e na França, onde morou durante 10 anos, Maria atualmente reside no Canadá, onde está imersa no universo da cannabis. Colaboradora Sechat, mensalmente vem abordando atualidades e inovações do mercado norte americano, além de prestar consultoria cannábica, com o intuito de fortalecer a causa no Brasil (Foto: Arquivo)

Coluna de Maria Ribeiro da Luz*

Globalmente, para a tão falada sustentabilidade ser efetiva e de fato beneficiar o planeta, não basta abolir o uso do canudinho plástico ou consumir produtos que ostentem um selo verde. Fundamentar a sustentabilidade como estratégia de marketing não substancializa um conceito tão amplo e  abrangente. A sustentabilidade deveria ser entendida por nós como algo holístico e que só será passível de funcionar se todos os terráqueos estiverem engajados. 

“Industrial” e “Sustentável” são adjetivos que dificilmente se complementam numa frase. Nós humanos, constituímos uma sociedade movida pelo consumo, e somos portanto, dependentes das indústrias. Por outro lado, a sustentabilidade é urgente e necessária, se temos a pretensão de deixar um planeta funcional para as próximas gerações. Ficamos com o legado de criar formatos para essas duas necessidades coexistirem em equilíbrio. 

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Imagem: Reprodução

Na competitiva indústria da cannabis norte-americana, os cultivadores, lutando por um lugar ao sol, produzem novas variedades, cada vez mais potentes. Quem se beneficia dessa concorrência de mercado são os consumidores, que têm mais escolha de produtos a preços cada vez mais competitivos. A indústria teve crescimento exponencial nos últimos anos, após ambos gigantes da América do norte terem adequado suas leis para regulamentação do consumo e da produção de produtos de cannabis. A superprodução do mercado em plena expansão traz como consequência um consumo colossal de energia e água, além da necessidade de lidar com uma significativa quantia de resíduos.

A atenção internacional está cada vez mais voltada ao impacto ambiental causado pela indústria da cannabis em regiões onde o cultivo foi legalizado. Alguns produtores específicos implementaram programas de sustentabilidade para reduzir os impactos ambientais, no entanto, as políticas de sustentabilidade do setor ainda deixam a desejar, gerando inconsistência nas práticas e lamentáveis danos ambientais. As questões ambientais se estendem muito além do cultivo e precisam ser observadas integralmente. Embalagens, cartuchos de vaporizador descartáveis e todas as implicações da cadeia produtiva dos extratos de canabinóides e seus solventes não caberiam numa só pauta. Portanto, trataremos aqui apenas de questões referentes ao cultivo. 

As características naturais do Brasil, e sua posição atual entre os 4 primeiros no ranking mundial de produção agrícola, possibilitam tranquilamente o cultivo de cannabis ao ar livre. Embora o cultivo externo necessite menos energia,  ele utiliza mais água e degrada o solo por conta do acúmulo de resíduos de fertilizantes e pesticidas. Grande parte da produção de cannabis comercial utiliza fertilizantes petroquímicos, que comprometem os microrganismos do solo, destruindo sua biodiversidade e seu potencial de sustentabilidade a longo prazo. Os resíduos químicos também contaminam os lençóis freáticos e contribuem, juntamente com a prática da monocultura, para a exaustão do solo. Uma alternativa mais sustentável a longo prazo, seria adotar a rotação de culturas, que consiste em alternar anualmente o plantio de espécies vegetais numa mesma área agrícola. 

O cultivo em estufas (indoor) é comum na américa do norte pois além de se adaptar melhor ao clima, possibilita maior controle das variáveis necessárias para o crescimento da planta, dispendiosa em termos de energia, água e nutrientes. Estima-se que a produção de cannabis nos Estados Unidos consuma atualmente cerca de um por cento da eletricidade do país, com custo energético de cerca de US$ 2 500 por quilo de maconha produzida. Com importante emissão de CO2, a produção anual de cannabis equivale à produção de cerca de 3 milhões de carros médios.

É necessário muita energia para viabilizar o funcionamento do processo de cultivo indoor. O consumo principal é com iluminação, mas o operacional da estufa é bem complexo e necessário 24hs, consumindo também com ventilação, aquecimento e irrigação. Além de devorar energia, uma planta de cannabis, dependendo do método de cultivo e peso da planta, consome entre 3,8 litros até 56,8 litros por planta por dia, segundo estudo de Scott Bauer, sobre Impactos dos desvios das águas superficiais, na Califórnia do Norte.

Tanto o Estados Unidos como o Canadá têm regulamentos rigorosos para o descarte de resíduos fibrosos pós colheita. Legalmente, os cultivadores precisam primeiro tornar os resquícios da planta irreconhecíveis, e então, misturar com outros resíduos que não sejam provenientes da cannabis. Devido a preocupações governamentais de que os restos possam ser desviados, facilitando a produção ilegal, os detritos orgânicos do cultivo não podem ser simplesmente compostados ou eliminados de forma limpa, pois são considerados como sendo de natureza médica, e devem ser incinerados ou enviados diretamente para aterros sanitários. Além disso, todos os resíduos precisam ser categorizados, pesados e inventariados para que possam ser rastreados.

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Esse procedimento, além de burocrático, acrescenta custos consideráveis ao operacional e francamente, é um desperdício no contexto moderno de gerar valor a partir daquilo que outrora se pensava inutilizável. O material orgânico poderia simplesmente ser compostado, trazendo benefícios à terra e até mesmo gerar algum subproduto gasoso. Resíduos combustíveis têm a capacidade de fornecer calor que pode ser utilizado para complementar as necessidades de aquecimento da estufa.

Apesar dos rigorosos testes e avaliações do produto final, desde a semente até à venda, não existem atualmente regulamentações para controlar o cultivo de cannabis do ponto de vista da sustentabilidade, como normas de baixo desperdício, descarte de resíduos, baixas emissões, e eficiência energética. No entanto, algumas alternativas estão sendo utilizadas, projetadas para se adequar e beneficiar o cultivo, com soluções mais ecológicas, agregando o diferencial de sustentabilidade, interessante para o planeta e também para o consumidor final.

Tecnologias alternativas com métodos de cultivo mais ecológicos também estão sendo uma opção. Os sistemas aeropônicos utilizam entre 90% a 98% menos água do que os métodos tradicionais de cultivo de cannabis, uma vez que a água é reciclada de volta para o sistema. Ocupam também muito menos espaço e produzem rendimentos mais elevados.

Como resultado, as operações de cultivo aeropônico são muito mais sustentáveis – tanto ambiental como economicamente.

A aquaponia é a  incrível técnica que combina aquacultura com a hidroponia, através do cultivo de peixes e plantas num ambiente sem solo. Na aquaponia, os peixes são os principais fornecedores de nutrientes para o sistema. Recebendo uma alimentação rica em nutrientes, os peixes fertilizam a água e, por sua vez, as plantas irão remover estas vitaminas e minerais da água para crescerem. Num ecossistema simbiótico incorporado, é reduzida a utilização e descarte de químicos, se possibilita economia de energia em até 50% e de água, em até 80%.

ilustração: João R.Negromonte

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Como alternativa ao alto consumo energético, a energia eólica está sendo utilizada como uma solução viável para algumas das preocupações ambientais que a indústria de cannabis enfrenta. Juntamente com os novos desenvolvimentos em painéis solares, feitos de poly-silicone, a tecnologia eólica pode ter um impacto positivo e poderoso nos custos energéticos e nos efeitos ambientais de uma operação de cultivo indoor.

Micron, uma empresa de Vancouver, desenvolveu uma nova tecnologia em biodigestores, que baseada na digestão aeróbia, utiliza um processo mecânico e biológico para decompor os resíduos de cannabis em lodo, utilizando micróbios e enzimas naturais para posteriormente converter os resíduos orgânicos em água limpa, cumprindo com as normas vigentes para descarte. 

A única vantagem de estarmos atrasados na regulamentação canábica é termos a oportunidade de corrigir alguns erros alheios e adequar os acertos, aplicando uma regulamentação mais assertiva quando nossa hora (enfim) chegar. Os mercados mais recentes, que estão ingressando nessa indústria, podem tirar proveito das lacunas ambientais dos vizinhos do norte e colocar algumas destas considerações em pauta nos seus planos regulamentares.

Todo o mercado poderia se beneficiar num cenário com um sistema regulador consciente e eficiente, que proporcione transparência e previsibilidade para investidores, cultivadores e consumidores. A indústria da cannabis movimenta diversos setores adjacentes e a engenharia de um sistema de produção integrado, oferece oportunidades significativas para atualizações tecnológicas aliadas a um processo mais responsável e ecologicamente consciente. A indústria da cannabis será sem dúvida mais sustentável no futuro, quando, passado o deslumbre com o novo mercado legal, o consumidor naturalmente buscará consumir um produto limpo e orgânico, como qualquer planta deve ser.

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e de responsabilidade de seus autores.

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